Adão e Eva

Adão e Eva expulsos do Paraíso, Gustave Doré

Adão e Eva expulsos do Paraíso, Gustave Doré

Segundo a Bíblia, Deus formou Adão, o primeiro homem, com o barro do chão. De sua costela fez Eva, sua mulher. E logo os colocou em meio a um paraíso fantástico. Ambos viviam nus sem se envergonharem, e Deus, pelas tardes, costumava visitá-los e conversar com eles (Gênesis 2).

Uma história para encantar crianças de todas as épocas. Mas, com o passar do tempo, a Ciência demonstrou que o homem foi evoluindo a partir de seres inferiores, desde o Australopitecus, há uns três milhões de anos, passando pelo Homo Erectus, o Homo Habilis e o Homo Sapiens. Se alguém aí achar que eu estou copiando a abertura da série The Big Bang Theory, está absolutamente certo…

Então, o homem não foi formado do barro nem a mulher a partir de uma costela; no início, não houve apenas um casal, mas vários; e os primeiros homens eram primitivos, não heróis dotados de sabedoria nem perfeição.

Por que a Bíblia relata desta maneira a criação do homem e da mulher? Simplesmente porque se trata de uma parábola, de um relato imaginário que pretende deixar um ensinamento.

Consta que esta parábola foi composta por um anônimo catequista hebreu a quem os estudiosos chamam de yahvista, próximo ao século 10 antes da Era Comum. Como seu propósito não era dar uma explicação científica sobre a origem do homem, mas sim criar uma aproximação religiosa, elegeu esta narração na qual cada um dos detalhes tem uma mensagem simbólica, segundo a mentalidade da época.

Mestre Vitalino trabalhando o barro. Museu Casa do Pontal/Foto Pierre VergerUm Deus oleiro

O primeiro detalhe que chama a atenção é que o texto afirma que o homem foi criado do barro. Diz o Gênesis que, no princípio, quando a terra era ainda um imenso deserto, “o Senhor Deus formou o homem do pó da terra, e soprou em seus narizes o fôlego da vida; e o homem foi feito alma vivente” (2,7).

Para entender isto, deve-se levar em conta que os antigos achavam curioso ver que, pouco tempo depois de falecida uma pessoa, ela se convertia em pó. Esta observação os levou a imaginar que o corpo humano estava fundamentalmente feito de pó. A ideia se estendeu por todo o mundo oriental, e a encontramos presente na tradição da maioria dos povos. Os babilônios, por exemplo, contavam como seus deuses haviam amassado com barro os homens; e os egípcios representaram nas paredes de seus templos a divindade amassando com argila o faraó. Gregos e romanos compartilhavam igualmente esta opinião.

Quando o escritor sagrado quis contar a origem do homem, baseou-se nesta mesma crença popular, mas agregou uma novidade a seu relato: o ser humano não é unicamente pó; possui em seu interior um sopro de vida que o distingue de todos os demais seres vivos, porque ao vir de Deus, se converte em sagrado. E isso não acontece somente ao rei ou ao faraó, mas a todos os homens. Ele quis dizer isso quando contou que Deus “soprou em seus narizes”. Começava assim a revolucionar a concepção antropológica da época.

A imagem de um Deus oleiro, de joelhos no chão, amassando barro com as mãos e soprando nos narizes de um boneco pode nos parecer um pouco bizarra. Na mentalidade da época, no entanto, a cena descrevia uma homenagem a Deus.

De fato, de todas as profissões conhecidas na sociedade de então, a mais digna, a mais grandiosa e perfeita era a de oleiro. Impressionava ver esse homem que, com um pouco de argila sem valor, era capaz de moldar e criar com grande maestria preciosos objetos: baixelas, copos e belos utensílios.

Outro dia, na televisão, assistimos, Silvia e eu, a um documentário sobre mestre Vitalino. Lá em Caruaru, o grande artista popular era exatamente isso, um oleiro. Muito bem feito, o programa mostra como esse homem simples influenciou, e ainda influencia, a cultura e a economia do lugar. Faz pensar.

Mas voltemos ao nosso texto. O yahvista, sem pretender ensinar cientificamente como foi a origem do homem, posto que não o sabia, quis indicar algo mais profundo: que todo homem, quem quer que seja, é uma obra direta e especialíssima de Deus. Não é mais um animal da criação, mas um ser superior, misterioso, sagrado e imensamente grande porque Deus em pessoa teve o trabalho de fazê-lo.

A imagem de Deus Oleiro ficou consagrada na Bíblia como uma das mais bem feitas. E, ao longo dos séculos, reaparecerá muitas vezes para indicar a extrema fragilidade do homem e sua total dependência de Deus, como na frase de Jeremias: “Diz o Senhor: eis que como o barro nas mãos do oleiro, assim sois vós na minha mão” (18, 6).

Adão e Eva, de Gustave Doré, c. 1868A solidão do homem

Em seguida aparece no relato uma série de pormenores curiosos e muito interessantes. O relato diz que Deus colocou o homem que havia criado em um maravilhoso jardim, cheio de árvores que lhe dariam sombra e o abasteceriam de saborosas frutas (2,9). A água era abundante nesse jardim, já que estava regado por um imenso rio, com quatro grandes braços.

Uma imagem perfeita da felicidade que os seres humanos teriam desejado desfrutar se a vida não transcorresse em terrenos desérticos, onde a água era tão difícil de conseguir.

Porém, de repente, o relato se detém; algo parece haver saído mal. O próprio Deus pressente que não é muito bom o que fez: “Não é bom que o homem esteja só” (2, 18). A Criação o rodeou de luxos e bem-estar, mas o homem não tem ninguém com quem se relacionar.

Ante esta circunstância, diz o Gênesis, Deus busca corrigir a falha mediante uma nova intervenção. Com grande generosidade, cria todo tipo de animais; os do campo e as aves dos céus, e os apresenta ao homem para que ponha um nome em cada um e lhe sirvam de companhia (2,19). Contudo, não encontra um companheiro adequado para o homem; os animais não parecem ser uma companhia ideal para ele (2,20). Deus errou de novo?

Após refletir, tentará reparar seu segundo equívoco mediante uma obra definitiva: “Então o Senhor Deus fez cair um sono pesado sobre Adão, e este adormeceu: e tomou uma das suas costelas, e serrou a carne em seu lugar. E da costela que o Senhor Deus tomou do homem, formou uma mulher: e trouxe-a a Adão. E disse Adão: Esta é agora osso dos meus ossos, e carne da minha carne: esta será chamada varoa, porquanto do varão foi tomada.” (2,21- 23).

Finalmente, Deus tem sucesso. Pode sorrir satisfeito porque agora, sim, conseguiu um bom resultado. O homem encontrou sua felicidade com a presença da mulher.

Os ensinamentos deste relato são profundos:

Primeiro: que a solidão não é boa para o homem. Que ele não foi criado como um ser autônomo e autossuficiente, mas sim necessitado dos demais, de outras pessoas que o complementem em sua vida; sem elas o mesmo homem “não é bom”.

O segundo ensinamento está na frase que diz que nos animais Adão “não encontrou uma ajuda adequada”. Quis advertir com ela que os animais não estão no mesmo nível do homem; que não têm sua mesma natureza; e portanto não estava bem que ele se relacionasse com os animais como fazia com as pessoas. Apesar de que…

O terceiro ensinamento pretende explicar que está bem para o homem deixar seu pai e sua mãe, afetos tão sólidos e estáveis, para se unir a uma mulher. É o primeiro canto da Bíblia ao amor conjugal.

Outro detalhe fascinante é o profundo sono que Deus fez cair sobre Adão antes de criar a mulher. Muitos o interpretam como uma espécie de anestesia preparatória, já que Deus está por intervir cirurgicamente em Adão para extrair uma costela e quer primeiro deixá-lo insensível.

Porém, o sono de Adão tem a ver com a concepção que o autor tinha da ação criadora. Criar é o segredo de Deus. Só Deus o conhece e só Ele sabe fazer. O homem não pode presenciar o ato da criação de Deus. Por isso dorme quando Deus cria. Ao acordar, não sabe nada do que passou. A mulher recém-criada também não, pois quando se dá conta de que existe, já foi formada.

Com esta cena a narração adverte que a atuação de Deus no mundo é invisível para os olhos humanos. Somente quem tem fé pode descobri-la. Ninguém consegue contemplar a Deus se estiver dormindo e não despertar a fé.

Um homem e uma mulher

O momento culminante da narração, e de alguma maneira o centro de todo o relato, é constituído pelo detalhe de a mulher ser formada através da costela de Adão.

Nosso autor emprega aqui uma belíssima imagem para deixar aos leitores uma lição grandiosa. Para criar a mulher, Deus não tomou um osso da cabeça do homem, pois ela não está destinada a mandar no lar; mas também não a fez do osso do pé, porque não foi chamada a ser servidora do homem. Ao dizer que a cria de sua costela, ou seja, de seu lado, a coloca na mesma altura que o varão, no mesmo nível e com idêntica dignidade.

Tal atrevimento de declarar a mulher semelhante ao varão deve ter irritado enormemente os seus contemporâneos e sem dúvida constituiu uma ideia revolucionária em sua época.

O relato termina com um último detalhe sugestivo: “E ambos estavam nus, o homem e a sua mulher; e não se envergonhavam” (2, 25). Mais adiante, quando se desata o drama do pecado original sobre Adão e Eva, dirá: “Então foram abertos os olhos de ambos, e conheceram que estavam nus” (3, 7).

Esta alusão alimentou a imaginação de milhões de leitores ao longo dos séculos e levou a pensar que o pecado original tinha a ver com o sexo. Na realidade, o autor, com esta observação, buscava apenas transmitir uma última mensagem a seus leitores, baseada na experiência cotidiana. Nela, via como as crianças pequenas andavam nuas sem se envergonharem. Ao contrário, ao entrar na puberdade, fase da vida em que todos já têm consciência do Bem e do Mal e se tornam responsáveis por seus atos, a nudez era coberta.

O yahvista quis dizer assim que toda pessoa ao entrar na fase adulta é pecadora e, portanto, responsável pelas desgraças que existem na sociedade. Ninguém pode se considerar inocente frente ao mal que o rodeia nem pode dizer “eu não tenho nada a ver”. Por isso todos sentem vergonha de sua nudez.

Assim, não interessa contar “como” apareceu o homem sobre a Terra, mas “de onde” apareceu. E sua resposta é: das mãos de Deus.

O “como” os cientistas devem explicar. Ao “de onde”, o responderá a Bíblia. E algo mais profundo: que todo homem, quem quer que seja, é uma obra direta e especialíssima de Deus.

Boletim nº 139 – novembro/dezembro de 2012 – Ano 23

Especial para ASA

Henrique Veltman

Carioca, jornalista, 80 anos, torcedor do Ameriquinha. Antropólogo por formação, comunista por deformação. Sionista, ateu graças a Deus. Vários livros publicados (os últimos, Do Beco da Mãe a Santa Teresa; A História dos Judeus no Rio de Janeiro; A História dos Judeus em São Paulo; Histórias de Vovó Rachel – A Criação do Mundo). Novelista de rádio e televisão. Casado, avô de quatro netas e bisavô de quatro bisnetos. Hoje, editor de Opinião do jornal DCI Diário Comércio Indústria & Serviços de São Paulo. É colunista do Boletim ASA. E-mail: hbveltman@gmail.com

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