A esquerda brasileira observa o Oriente Médio: há racismo nisto?

Tem sido recorrente entre judeus de esquerda a irritação e o constrangimento pelo fato de que, ao tratar das políticas dos governos de direita de Israel, militantes e intelectuais da esquerda brasileira responsabilizam não só a direita nacionalista israelense, mas todos os judeus nacionalistas, e, em alguns casos, todos os judeus por estas políticas. E as reclamações têm fundamento, porque este tratamento opera uma dupla transformação: ele transforma em nacionalismo de direita todo o nacionalismo judaico e, em alguns casos, transforma em nacionalistas todos os judeus, ainda que estas sejam coisas radicalmente distintas.

Isto mostra o quanto deixamos de observar variáveis que são decisivas para  compreender a configuração política das sociedades do Oriente Médio e sobre as quais pouco se reflete em nosso meio.

Eu queria pensar sobre isto por meio de um caso. Trata-se de um documento publicado na época dos protestos em Israel contra a atual coalizão de direita.

O título do documento é simplesmente “Declaração”, e esta versão foi publicada no jornal Unsere Zeit, do Partido Comunista Alemão (DKP).

“Declaração”

O documento defende “uma paz justa e equânime na região” e o fim da “ocupação e da agressão militar israelense” e apoia “a justa luta do povo palestino pela realização de seu direito à autodeterminação em comum acordo com as decisões da comunidade internacional”. Os signatários reconhecem “o direito do povo palestino sob ocupação de lançar mão de todas as formas de resistência legais e ajustadas às normas internacionais para expulsar os ocupantes de seu território e de afirmar seu direito à autodeterminação”. O documento defende o reconhecimento “do Estado da Palestina com as fronteiras de 4 de junho de 1967 e com Jerusalém Oriental como capital”, afirmando que isto “não representa uma ameaça à existência de Israel”, e reconhece a OLP “como a única e legítima representante do povo palestino”, enfatizando a “importância da luta comum dos povos de Israel e da Palestina”.

Este documento, com pontos de vista amplamente compartilhados por parte significativa da esquerda brasileira, é assinado por um conjunto grande de organizações da esquerda israelense e palestina, incluindo os partidos comunistas, organizações de juventude, sindicatos, organizações de mulheres, entre outras. Além disso, é relevante o fato de que partilham destes pontos de vista organizações da esquerda sionista como o Meretz e a esquerda do trabalhismo.

Esta “Declaração” gera algum incômodo em nosso ambiente político. Não pelas posições que expressa, mas por causa dos signatários. Ela nos obriga a romper com a forma pela qual normalmente imaginamos a configuração política no Oriente Médio: árabes-palestinos de um lado e judeus-israelenses do outro.

Nacionalismos

Esta visão de senso comum é o resultado de um trabalho longo e bem sucedido dos  nacionalismos de direita israelense e palestino, que têm todo interesse em que o conflito seja percebido exclusivamente como  nacional e não como um conflito cujos programas políticos  superam as fronteiras nacionais. Esta percepção está tão consolidada em nosso ambiente político que, para alguns espíritos mais inocentes e menos cultivados de nossa esquerda, deve ser até mesmo curioso imaginar que entre os palestinos exista a direita e  entre os israelenses, a esquerda.

O olhar para o Oriente Médio com o qual estamos acostumados é, assim, um olhar nacionalista: vê simplesmente campos nacionais internamente homogêneos e deixa de ver classes sociais e projetos políticos concorrentes como existem em todo o mundo: o grande campo da esquerda de um lado (que inclui árabes e judeus) e o grande campo da direita de outro (que também inclui árabes e judeus). Nós nos satisfazemos simplesmente com as alternativas que o nacionalismo de direita dos “dois lados” nos ofereceu ao longo do tempo, e muitos de nós, bravamente, lutaram contra Israel e pela Palestina, sem nunca se perguntarem por qual projeto de Palestina e contra qual projeto de Israel lutaram.

Contudo, talvez tão ou mais perturbador do que perceber que no Oriente Médio exista a direita e a esquerda seja perceber que existem sionistas de esquerda que concordam com a “Declaração”.

Isto porque o termo “sionismo” está hoje na lista das palavras que, em nosso ambiente político, têm um sentido essencialmente negativo e uma função acusatória, em não poucos casos por meio do termo composto “nazi-sionismo”.

Entre nós, a palavra “sionismo” é usada como usamos outros “ismos” da política. Assim, emprega-se “sionismo” no mesmo sentido que empregamos trotskismo, maoísmo, nazismo ou fascismo, ou seja, como um movimento político com um corpo doutrinário e um perfil ideológico definidos e com um projeto político sistêmico e coerente. Mas o sionismo não é isto.

Falar de sionismo é falar do nacionalismo judaico em seu sentido mais lato possível, que envolve campos políticos muito diversos (indo desde a esquerda radical até a extrema direita) e que tem um elemento em comum: o projeto de construção de um Estado-nação próprio, no mesmo estilo de muitos dos nacionalismos nascidos no século 19 e que afirmaram o princípio de autodeterminação. Além disso, o nacionalismo judaico (sionismo) é um fenômeno homólogo a um conjunto enorme de nacionalismos centrados na noção de hereditariedade, como o são aqueles da Alemanha, Grécia, Índia, Turquia e muitos outros na Europa, Ásia e África.

Racismo

Mas, apesar de a esquerda ser repetidamente acusada de antissemitismo por causa de uma compreensão equivocada do que é o nacionalismo judaico (sionismo), não se pode, a priori, ver nisto uma manifestação de racismo. Desconsiderar toda a pluralidade política do nacionalismo judaico e, recusando o espírito de solidariedade política típico da esquerda, criar um ambiente ruim para a esquerda judaica em nosso mundo, é expressão de cegueira política ou de ignorância e de falta de competência para uma “análise concreta da situação concreta”, mas não necessariamente de racismo.

Falar de racismo só é possível quando atribuímos uma qualidade negativa a um grupo humano supostamente natural, singular e homogêneo. Dependendo de quem observa, o que é negativo pode variar, mas, no racismo, as qualidades negativas estão sempre presentes.

Uma das formas clássicas de expressão de racismo contra o judeu é a ideia de que, por sua própria natureza (imutável), ele é um mal ou um problema para o mundo que precisa ser isolado ou eliminado. Na segunda metade do século 19 se consolida um dos motivos mais frequentes do racismo contra judeus que é a noção fantasiosa (originada no cristianismo medieval) de que os judeus têm a tendência natural para a dominação do mundo.

Neste momento, ganha corpo em uma teoria de que existe uma conspiração internacional dos judeus, que buscam o controle do mundo por meio de uma ação oculta, em especial o controle da economia.

Adolf Hitler, na década de 1920, dando voz a esta concepção, fez o seguinte raciocínio em seu livro Minha Luta:

“O Estado Judeu nunca foi limitado, mas universalmente ilimitado em termos espaciais, mas é, em compensação, limitado pela constituição de uma raça. Assim, este povo constitui sempre um Estado dentro dos estados. (…) O Judeu, por meio do mercado de ações mergulha nas artérias da produção nacional e a submete ao seu controle. (…) Por fim, a influência judaica sobre a economia por meio do mercado de ações [faz com que] ele se torne o dono ou o controlador da potência produtiva nacional. (…)  Tanto os governantes como os níveis mais altos da burguesia política e econômica caem, desta forma, em sua rede sem que eles se deem conta disto.”

Uma coisa no trecho citado é decisiva: é suficiente que alguém seja judeu para que  se torne o portador deste programa político de controle do mundo. Este é um tema central do chamado “antissemitismo político”: ser judeu torna alguém parte de uma articulação política internacional para o controle do o mundo.

Recentemente, este tema clássico do “antissemitismo político” foi reproduzido no Brasil por meio de um artigo do argentino Manuel de Freytas, objeto de polêmica entre nós. Trata-se do artigo significativamente intitulado “Os Donos do Mundo” e publicado originalmente no sítio IAR-Notícias.

“O lobby sionista que sustenta e legitima a existência de Israel não é um Estado no distante Oriente Médio, senão um sistema de poder econômico planetário (o sistema capitalista) (…) Quem se der ao trabalho de investigar o nome dos integrantes das diretorias ou dos grandes acionistas das grandes corporações e bancos transnacionais estadunidenses e europeus que controlam desde o comércio exterior e interior até os sistemas econômicos produtivos dos países, (…) poderá facilmente comprovar que (em uma importante maioria) são de origem judia.”

“(…) O lobby sionista não controla o mundo com a religião: o maneja com bancos, transnacionais, hegemonia sobre os sistemas econômico-produtivos, controle sobre os recursos naturais, controle da rede informativa e de manipulação mundial, o manejo dos valores sociais através da publicidade, a cultura e o consumo estandardizado e globalizado pelos meios de comunicação.” (grifos acrescentados)

O raciocínio de Freytas, como o de Hitler, é muito simples e pouco sofisticado: O lobby sionista internacional só existe porque judeus controlam a direção das empresas (o que eu duvido, mas isto não é importante aqui). A questão chave aqui, mais uma vez, está em sua crença de que é suficiente ser judeu ou, como diz Freytas, ser de origem judaica para ser portador de um programa político e para fazer parte do “lobby sionista” que controla o mundo. Ao atribuir magicamente esta “essência política” a todos os judeus, Freytas deixa de lado não somente a lucidez, como também deixa para trás os territórios da cegueira e da ignorância e entra de forma vigorosa no continente do racismo.

Boletim nº 139 – novembro/dezembro de 2012 – Ano 23

Especial para ASA

Luís Edmundo de Souza Moraes

Professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro

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