Onde está o elo?

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Entre Elos Perdidos

David L. Levisky

Rio de Janeiro, Imago Editora, 2011

380 págs.

Entre Elos Perdidos é um romance que poderia ser categorizado, além de seu aspecto “romântico”, como uma narrativa pedagógica ou até enciclopédica. A primeira classificação se deve ao envolvimento de alguns personagens com situações determinadas por corações apaixonados, também por acontecimentos excêntricos, mas, principalmente, pelo alto grau de introspecção exposto pelo protagonista.  A caracterização como narrativa pedagógica se deve ao seu teor informativo sobre áreas de fundo social, histórico, geográfico, antropológico, político, filosófico, religioso e psicológico. Pela conjunção destes traços distintivos,  pode ser visto como uma narrativa inédita na história da literatura brasileira.
O romance se desenvolve a partir dos conflitos existenciais e psicológicos do professor Eliazar Cação, homem em busca de uma identidade, um destino e um futuro. A narrativa propriamente é magnetizada pela vida e pelos ensinamentos de Moisés Maimônides, o médico, filósofo e escritor judeu espanhol que viveu na Idade Média. Também traz no seu bojo um dos assuntos mais importantes dentro do judaísmo contemporâneo, que é a existência de pessoas que se descobrem  descendentes dos judeus forçados a abandonar sua fé para se tornarem cristãos, o que sucedeu por quase quatro séculos, durante o periodo da Inquisição na Península Ibérica.

Estátua de Maimônides em Córdoba

Estátua de Maimônides em Córdoba

Anussim
O protagonista, em determinada altura da sua vida, passa a alimentar a ideia de que talvez seja descendente daqueles judeus convertidos, os anussim, que acabaram chegando, geração após geração, até o século 21. O professor Cação procura seu “elo perdido” (como está no título do romance), ou seja, seu passado histórico como judeu, entre aqueles que o preservaram, seja em remotas aldeias portuguesas ou em certos lugarejos brasileiros. Nascido  no Brasil e criado numa família católica, casa-se com Cláudia, cujas raízes judaicas pararam de crescer quando sua avó materna, judia europeia, vítima do antissemitismo europeu contemporâneo, renunciou ao judaísmo, com medo de mais perseguições.  A esposa de Cação, crescida na religião católica, é indiferen te a seus predecessores judeus, para desencanto do marido.
Ao longo da sua pesquisa sobre os descendentes dos anussim e de seus estudos sobre Maimônides, depois de visitar vários lugares pela Europa e o Oriente Médio, o professor chega até a Biblioteca Nacional de Paris, onde encontra e se apaixona por Sofia, uma jovem antropóloga, turca e muçulmana, que logo retribui o amor do brasileiro. Ela  confessa ser a ovelha negra da família e da sua comunidade, pois além de se ter divorciado,  decidira aprofundar-se em pesquisa acadêmica, em vez de se interessar em fomentar seu casamento e constituir família. Neste meio tempo, Cláudia, bem sucedida em trâmites imobiliários, se ocupa em promover negócios com empresários internacionais. Ela e o marido combinam viajar juntos até um certo ponto na Europa, onde se separariam para cada um cuidar de seus interesses. Em seguida, voltariam a se encontrar par a umas férias curtas antes de retornarem ao Brasil. Nesse esquema, o professor inclui sorrateiramente sua amante, respeitando cada uma das exigências que as duas mulheres fazem da sua presença e atenção.

Informação e identidade
A quantidade de informação reunida e disseminada pelo protagonista, seja em seus solilóquios, nas conversas com sua cultivada amante, ou com outras pessoas igualmente instruídas, chega a perturbar o fluxo da narrativa. Não se furtando a  cáusticas críticas ao governo brasileiro, o romance se dispersa por extensas citações e demonstrações de erudição sobre temas variados, como se dirigidos a um público encerrado num auditório. Como resultado, o discurso narrativo se fragmenta, o que tende a dificultar a captação do seu enredo no processo da leitura.
A história vai chegando ao final quando, depois de uma pesquisa em uma aldeia portuguesa, Cação retorna ao Brasil, onde dá uma palestra em Porto Alegre. De lá, viaja a Paris, para encontrar sua amante turca e tomar a decisão mais importante da sua vida, conectando ou partindo, de uma vez por todas, o “elo perdido”.  O autor, médico psiquiatra radicado na cidade de São Paulo, faz um bom trabalho ao aludir tanto ao campo quanto à cidade como elementos nutrientes da curiosidade intelectual do protagonista.
Aqueles que querem se aprofundar nas questões filosóficas medievais, nos textos de Maimônides e em diversos assuntos de índole judaica, vão encontrar neste romance um cabedal de argumentos e discussões de seu interesse. Para os que não estejam dispostos a seguir as digressões textuais, ainda assim recomenda-se a leitura de Entre Elos Perdidos, pela universalidade da busca de uma identidade que vai de encontro a alguns de seus aspectos insólitos e contundentes, a espreitar os  desenraizados e os perplexos.

Boletim nº 138 – setembro/outubro de 2012 – Ano 23

Especial para ASA

Regina Igel

Professora-titular e coordenadora do Programa de Português da University of Maryland, College Park (EUA). É colunista do Boletim ASA.

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