Passei e vi

Crônica 1 do Saturnino 013O Rio é uma epifania; não é a coisa em si que se oculta dos sentidos, mas é aquilo mesmo de real que se mostra em curvas e cores, em luzes e sabores; o Rio é o som do samba e a poesia da canção. O Rio em si é música e é dança, é o ser em movimentação rítmica própria. É forte na filosofia, sim, tem saberes que outros povos não alcançam, sabe cultivar o dever de viver. O Rio chama para o Belo e a Verdade, propicia o ser no homo, o filosofar, que é a mesma coisa. O homem envolvido demais nas cortes do business, nas obrigações mundanas do fazer e do ganhar, não pode ter a liberdade de espírito como tem no Rio, mesmo trabalhando, para ver e perceber as harmonias que existem entre as coisas desse belo mundo de aparências, não tem disponibilidade para contemplar e para amar, não te m tempo para ser. O Rio propicia, é o esplendor das aparências. Não produziu grandes sistemas escritos e catalogados, mas configurou, sim, um sistema vivo, um sistema filosófico de vida, um modo de ser sem paralelo. Não é tão forte na saúde: na periferia, onde vive o povo, o Rio ainda é cheio de carências dos macroelementos e tem poucas noções de sais e vitaminas; fuma e se exercita no trabalho, sem usufruir as modernidades que circulam pelo centro, que é a orla do mar ameno, onde academias proliferam e médicos cobram em ouro sua ciência. Mas a vida é saúde e mais filosofia, e o Rio é rico na filosofia.
O contemplar tem muito a ver com o Rio porque, ora… Assim é que a moça inglesa contemplava: passou horas ali, em quinze minutos passou quinze horas a contemplar, que o tempo tem mistérios quando a beleza excede, horas a olhar enternecida o conjunto de majestosos e delicados recortes de pedra natural banhados naquela luminosidade que vai da manhã à tarde, passando pelo ofuscante meio-dia, que é mais calor que luz e chega a fazer peso. Sentiu tudo isso ali, vendo e combinando memórias que já tinha, a manhã mais cromática e a tarde mais reveladora. Eram quase seis horas de uma clara tarde de verão, e é assim, no início da orla dos jardins do Aterro, perto da pirâmide do Estácio de Sá, que você vê saltar aos olhos no detalhe toda a musculatura portentosa do Pão de Açúcar, aquela enorme massa de carne-pedra, como viva, m esmo imóvel, sentada ali sobre a enseada em postura esfingética, o dorso composto pelo Morro da Urca.

Ela tinha visto antes, a moça inglesa, ou irlandesa, e voltava a contemplar, a comoção a lavorar-lhe a alma, o corpo entorpecido de encantamento, passei naquele justo momento e observei, pude ver seus olhos, de um azul de puro céu distante, as sobrancelhas finas bem riscadas, da mesma cor avermelhada dos cabelos muito curtos, a pele de uma brancura emocionante, naquele  mesmo instante em que se superpunham em seu espírito as impressões da vista e da audição, sua jovem boca se entreabrindo de felicidade, os dentes perfeitos, ela esguia, esbelta, de uma raça pura, bermudas coloridas e camiseta arroseada, juventude de outro hemisfério e outra língua, naquele momento em que, tendo ainda à frente o espanto da visão que a arrebatara, começava a escutar o que dizia, doce, o moço em seu ouvido, o instante mesmo da transição, aos poucos já olhando sem ver o que encantada tinha visto, e passando a escutar deleitada, mais e mais, o que lhe vai dizendo o rapaz, que é de cores bem morenas e raça carioca, numa língua que não é a dela, mas que é metáfora da música do Rio que ela ouviu e compreendeu, recebendo deleitada o falar carinhoso em seu ouvido, ela a seu lado, ambos de pé, tal como estavam na contemplação, ele com uma das mãos nas costas dela, carinhosamente, a mão direita, e a esquerda sobre o ventre dela, um pouco acima do diafragma, com leveza, a cabeça inclinada sobre o ouvido dela, ele mais alto, esguio como ela, raça caldeada, magra e elevada, também de bermudas, camiseta sem mangas, beijando-a em palavras. Eu vi, conheço os moços do Rio, são amorosos, há os brutos também, claro, formados na cultura do funk, do vídeo e no cinema do sangue, mas sã o carinhosos no maior e no geral, podendo até tirar vantagem disso, em dólar, mas sem brutalidade, no impulso puro do amor e da musicalidade, ele também fascinado de verdade, atraído por aquelas cores contrastantes, aquela alvura de pele, aquele azul de olhos, aquele vermelho de cabelos escoceses, ele também sorri igual, da mesma felicidade, enquanto fala e acaricia, colhendo na hora, no presente, quem sabe desfrutando mais posteriormente, passei e vi, quase ouvi, e tenho certo em lembrança ainda o que escutei ou não, ele em doçura, você está no Rio, apreenda, sorria, inale fundo essa atmosfera e relaxe a alma, goze, amiga, amor, deixe ser como é aquilo que é, você está no Rio, aqui à frente, a Baía dos Inocentes, passei e vi.

Boletim nº 138 – setembro/outubro de 2012 – Ano 23

Especial para ASA

Roberto Saturnino Braga

Foi prefeito do Rio e senador da República. É colunista do Boletim ASA.

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