Os Dias Temí­veis

Já escrevi nestas páginas que minha família, com a notável exceção de minha mãe, não levava muito a sério as tradições religiosas. Meu pai, que sabia tudo de cultura judaica, não costumava aparecer em sinagogas – esteve, claro, nos bar-mitsvás dos filhos, na Beit Israel da Praça Onze, e nos seus casamentos, no Grande Templo da Rua Tenente Possolo. Lembro, até, de ele oficiar alguns casamentos em residências suburbanas, mas isso não conferia, necessariamente, adesão religiosa. Não lembro de meu pai em nenhuma comemoração do Rosh Hashaná e do Iom Kipur.*
Minha mãe, em compensação, tentava manter a cashrut em casa. Fazia longas caminhadas para comprar carne no açougue de Zishe, na Rua Joaquim Palhares, com quem brigava sempre. “Ele é um ladrão”, dizia ela. Mas até se mudar para Copacabana, era freguesa constante.
Ela acendia as velas de Shabat, mas raramente estávamos presentes nesse momento. Jamais participamos, meu pai e meu irmão, de uma cerimônia dessas em nossa casa.
Et pour cause, minha mãe frequentava os serviços religiosos dos Dias Temíveis na Escola Talmud Torah, ali na Rua Ibuturuna. Era um recinto improvisado, desconfortável e agravado pelo calor carioca de sempre. Mas seus filhos, eu especialmente, éramos literalmente arrastados para o Talmud Torah.
Para minha mãe, o mais importante nos serviços era a oração do Avinu Malkeinu, Nosso Pai, Nosso Rei — consiste em 44 admissões de culpa, pedindo perdão a Deus por cada pecado. Para dona Rachel, depois dessa reza, era o momento de ir pra casa. (Sem esquecer que ela fazia questão de nos mostrar para suas amigas. Moysés sempre escapava, eu, coitado, me resignava).
Mas, hoje, eu diria que o momento mais crucial das rezas é o Unetane Tokef: “No Rosh Hashaná, o nosso destino é escrito; ao final do Iom Kipur, ele é selado. Quem deve viver e quem deve morrer? Quem deve morrer pelo fogo e quem deve morrer pela água?”

A pelada 
Um dia, acho que eu já estava com uns nove ou dez anos, a garotada descobriu que o grande terreno atrás do prédio da escola serviria, como serviu, para grandes peladas. Até torneios de futebol foram estabelecidos, para desespero dos fiéis que rezavam ali do lado.
Uma das recordações marcantes dessa época é que, especialmente no Iom Kipur, íamos almoçar, Bérale Vaisman e eu, na casa dele, numa vila da Mariz e Barros. Nossas devotas mães não abriam mão de garantir a boa alimentação das crias…
Depois, à medida que entrávamos na adolescência, os Dias Temíveis se transformaram na agradável ronda a muitas sinagogas e ao Templo. A gente ia encontrar nossos amiguinhos e, sobretudo, nossas amiguinhas, nos muitos espaços destinados à glorificação do Todo-Poderoso. Geralmente, esse roteiro terminava justamente na Tenente Possolo, com uma enorme pelada que se estendia até a Rua do Riachuelo e, às vezes, à Mem de Sá.

Emoção 
Mas guardo uma recordação emocionante de um Iom Kipur, em Tel Aviv. Eu ia andando por uma pequena rua, via e ouvia os grupos de religiosos reunidos no andar térreo daqueles pequenos edifícios da cidade branca. Tive a atenção despertada por uma sinagoga, de médio tamanho, numa esquina. Entrei. Estava lotada, prestei atenção às leituras, estranhei. Não combinava com o que eu havia aprendido nas sinagogas de São Paulo. Não me parecia o rito ashquenazi, muito menos o sefaradi. Enquanto eu tentava entender, um senhor, provavelmente o shames, me acenou e me arrumou um excelente lugar, lá na frente. E aí, a surpresa: o hazan era a cara do meu saudoso irmão! A cara e o jeito dele.
Quando o serviço terminou, fui falar com o hazan, expliquei a ele a minha emoção. Ele sorriu, acho que também se emocionou, me convidou a participar do kidush, do quebra-jejum no salão da sinagoga. E me explicou que, sim, era um rito especial de um grupo de búlgaros, parte deles ashquenazi, parte sefaradi. Rito criado por eles mesmos, afinal isso é da tradição judaica, ninguém é dono absoluto desse ou daquele rito…

Preparando o peixe

Preparando o peixe

As carpas
Além de ser registrado e carimbado no Iom Kipur, o povo judeu come. No Rosh Hashaná, um dos pratos mais tradicionais é o guefilte fish, originalmente um peixe recheado e que, com o passar do tempo, virou bolinho de peixe. Pode ser doce, como gostam os de origem polonesa, salgado, como preferimos nós, os bessarábios.

O guefilte fish é feito tradicionalmente de carpa, que deve ser deixada viva em água limpa por dois ou três dias para perder seu característico gostinho de lodo. Pois é, eu lembro que minha tia Rivka, que não era nada religiosa, mas uma ótima cozinheira, mantinha o peixe na banheira.
Dizem cozinheiros japoneses, no bairro da Liberdade, em São Paulo, que pegar a carpa viva e colocar algumas gotas de vinagre em sua boca provoca um violento processo de sudorese, que elimina em minutos o tal gosto de lodo. Nunca experimentei.

Tradições culinárias 
Nos últimos 20 e poucos anos, tenho desfrutado das comidas de Rosh Hashana e do pós-Iom Kipur. Acho bonita a inclusão das maçãs e do mel, com votos para um ano doce.
O peixe (deveria ser sempre a carpa, o peixe judaico entre os britânicos) é uma tradição: sempre nada para a frente e, usualmente, sua cabeça é oferecida ao decano da mesa como deferência especial.
O iuch de galinha é a grande estrela do jantar após o jejum de Iom Kipur. O de Mariazinha, minha sogra, é imbatível. Mas há controvérsias…
Esse jantar tradicional começa com o hering, o arenque. Sua salinidade faz com que se tome mais líquidos e se reidrate o organismo mais rapidamente.
Aprendi outro dia que um costume mais recente manda decorar os guefilte fish com rodelas de cenoura cozida para lembrar moedas e o desejo de melhorias para o ano que se inicia. Por que não?

Tashlich promovido pela CJB (rabino Nilton Bonder)

Tashlich promovido pela CJB (rabino Nilton Bonder)

Musef Amidá
As orações que acompanham o toque do shofar. As três bênçãos: reconhecer o poder de Deus sobre toda a criação, relembrar a História judaica e relacionar o toque do shofar aos eventos do passado e ao futuro do judaísmo.
O shofar é tocado enquanto são feitas as orações. Existem maneiras específicas de tocar o shofar, com a intenção de acordar os judeus para o julgamento de Deus e afirmar Sua posição como juiz e rei.
As leituras da Torá para o Rosh Hashaná são relativas tanto ao nascimento de Isaac — filho de Abraão e Sara, que se acreditava fosse estéril até que um dia, com a idade de cem anos, Deus a abençoou com um filho, e Abraão acreditou — quanto ao quase sacrifício de Isaac, quando Deus poupou a sua vida porque Abrãao provou ter fé absoluta em Sua palavra.
Em outra prática, conhecida como Tashlich, os judeus fazem orações especiais enquanto atiram migalhas de pão (ou algo parecido) em um rio ou fonte de água. As migalhas simbolizam os pecados da pessoa, que são então levados embora.

As práticas de acender velas e do kidush — uma bênção sobre o vinho — são procedimentos sagrados no judaísmo por fazerem a introdução ao Shabat ou a quaisquer outros dias santos. Para o Rosh Hashaná, as velas (geralmente duas) são acesas com orações especiais ou cânticos. A halá é um pão especial que também acompanha a celebração do Shabat e, no Rosh Hashaná, ao invés de trançada, ela é redonda, simbolizando o círculo infinito da vida e a coroa do reinado de Deus sobre os homens. Algumas pessoas pincelam a halá com mel ao invés de sal enquanto ele está assando; significando o desejo de um “ano novo doce”; também costuma-se mergulhar maçãs no mel. De fato, durante o Rosh Hashaná come-se todo tipo de comidas doces. Aqui perto de casa, na Rua Vieira de Moraes, temos a doceria Cristina, de origem austríaca. Minha mulher ensinou ao pessoal de lá a fabricar a halá do Shabat e, mais ainda, a redonda, do Ano Novo. Um sucesso, judeus e não judeus do bairro são grandes fregueses…

*Meu pai era um grande conhecedor de nossas tradições, mas aparentava não dar bola à religião. Depois de sua morte, porém, fomos surpreendidos ao descobrir que, durante muitos anos, ele foi um dos amigos mais fiéis de um pequeno rabino cabalista, que dele recebia, mesmo nas ocasiões mais difíceis para meu pai, um dinheirinho pra cobrir suas despesas. Chico era mesmo uma grande figura.

Boletim nº 138 – setembro/outubro de 2012 – Ano 23

Especial para ASA

Henrique Veltman

Carioca, jornalista, 80 anos, torcedor do Ameriquinha. Antropólogo por formação, comunista por deformação. Sionista, ateu graças a Deus. Vários livros publicados (os últimos, Do Beco da Mãe a Santa Teresa; A História dos Judeus no Rio de Janeiro; A História dos Judeus em São Paulo; Histórias de Vovó Rachel – A Criação do Mundo). Novelista de rádio e televisão. Casado, avô de quatro netas e bisavô de quatro bisnetos. Hoje, editor de Opinião do jornal DCI Diário Comércio Indústria & Serviços de São Paulo. É colunista do Boletim ASA. E-mail: hbveltman@gmail.com

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