Na asa da canção

Felix Mendelssohn Bartholdy

Felix Mendelssohn Bartholdy

“Na asa da canção” é título de um lied (poema cantado geralmente acompanhado ao piano) do compositor alemão Felix Mendelsohn (1809-1847). Possivelmente aqui permanecerá também como título, referência ao assunto que nos toca. O crítico literário e historiador musical Otto Maria Carpeaux (originalmente Karpen, família de judeus austríacos) considerava este lied  a obra-prima do autor, mesmo levando em conta  o resto da obra — constituída por sinfonias, oratórios,  concertos e música de câmara —, quase toda ela famosa e muito tocada até hoje. O critério de Carpeaux não terá sido simplesmente o gosto.  Realmente, há algo nesta canção que a faz mais atraente, interessante, dificilmente enjoativa por mais repetida, tudo  sublinhad o por extrema economia de meios (uma voz e piano).  Não há surpresas na melodia do soprano, não há exuberâncias no acompanhamento, resultando numa estranha convivência de concisão e eloquência. Fala pouco e diz muito (não se trata da poesia, mas da música).  Resumo: é bonita o suficiente para dar o que pensar.
O avô do compositor foi o famoso filósofo judeu Moses Mendelsohn, setecentista que, associado às ideias dos grandes iluministas, publicou várias obras manifestando pensamentos francamente liberais especialmente acerca da religião judaica e  da necessária convivência  da comunidade com a cultura germânica. O filho, Abram, já não se considerava judeu; tornou-se banqueiro, uma das grandes fortunas de Berlim, proporcionando aos quatro filhos educação e cultura devidamente berlinenses. O neto, Felix (filho de Abram – que acrescentara um Bartholdy ao sobrenome), foi criança-prodígio como pianista e logo como compositor. Além disso, devem-se-lhe avanços históricos da mesma estatura que seu gênio criador: ressuscitou a obra de Bach, que estava esquecido desde sua morte 70 anos antes, e promoveu o reconhecimento dos últimos quartetos de Beethoven, desprezados pela crítica da época, que chegou a considerá-los fruto de insanidade do compositor. Mendelsohn pode ser considerado, a rigor, o primeiro romântico da história da música ocidental. Sua própria  biografia  não o dispensou de desprezos e perseguições, embora  tardios cem anos após sua morte.  O fato de ser neto de judeu convertido  não impediu que os intelectuais do regime nazista (Goebbels, Goering e até Richard Strauss) proibissem a execução de sua obra; ao verem programada sua música incidental para  Sonho de uma noite de verão  (Shakespeare), encomendaram, em substituição, nova partitura, que foi composta por Carl Orff (nazista de carteirinha). A palavra romance e derivados escapou da antiguidade literária e veio parar  no jargão popular adquirindo vários sentidos – ou melhor, perdendo o sentido. Assim, para chegar aonde se pretende aqui,  é preciso definir romantismo em música.

Homem de Neandertal 4Forró na caverna
O pitecantropo, que conseguiu a proeza de ficar de pé, não precisava de arte. Uma caverna, comida e água chegavam. Talvez já arriscasse arranhar uns bisões na parede e isto teria sido sua primeira arte. Em matéria de música, no entanto, seu ouvido não percebia sons, apenas ruídos: trovoadas e terremotos, urrar de monstros pré-históricos e, especialmente, um ruído que acabou descobrindo vir dos próprios pés ao fugir de um dinossauro ou correr atrás de um mamute. Na caverna, experimentou bater com o pé no chão e deduziu, acertadamente: este é o primeiro instrumento de percussão da História.  Ao repetir as batidas, descobriu o ritmo e, assim, a forma mais primitiva de música — a dança. Equivocadamente o senhor  Neandertal achou que a dança chamava chuva, espantava espíritos, mas en fim… passou a dançar. Passados uns milênios, os pterodáctilos diminuíram de tamanho e, consequentemente, não urravam mais — piavam. Seu ruído virou som. Possivelmente o macaco bípede já distinguia pequenas diferenças de timbre entre os próprios ruídos: o barulho que ele produzia batendo com um fêmur de brontossauro na cabeça da esposa (que era pra ela aprender) era mais agudo do que a nota que ela tocava ao bater com o tal  fêmur na cabeça dele (que era pra ele deixar de ser bruto).  Assim também o pterodáctilo filhote piava mais fino que o adulto. O vento soprando num bambu esburacado pelo tempo fazia um som que variava com o tamanho do bambu e o número de buracos. E mais: ele próprio podia imitar o vento, acabando de criar o ancestral da flauta. Passados mais uns milênios, o macaco já tinha uma boa coleção de   sons e ruídos; fundou sua primeira banda (Os pleistocênicos),  tornando mais animado o forró na caverna (hoje chamado baile funk).

É claro que essa especulação toda não tem documentação histórica. O macaco ainda  estava  preocupado com sua sobrevivência — escrever sua música em papel, publicar, cobrar direitos autorais… nem pensar. Teríamos que esperar até lá pelos séculos 10 ou 11  para  ler, tocar, cantar e ouvir o que era a música na época.  Os interessados de então, que tinham tempo e dinheiro para isto (clero e nobreza), perceberam que   –  para permitir a  execução e divulgação  das músicas – era preciso organizar o material sonoro existente na natureza, ou seja, criar uma linguagem universal. Assim os sons ganharam nomes (os quase  eternos do-re-mi-fa-sol-la-si) e até uma hierarquia tipo planetária: para cada música (ou parte dela)  haveria uma das s ete notas como centro gravitacional, duas outras de órbitas próximas e as outras quatro sem poder de decisão (inegavelmente a lembrar também uma sociedade de classes).

Consolo
Este sistema, com suas respectivas sucessividades e simultaneidades das sete notas, seus arranjos e combinações,  ficou batizado de sistema tonal, que se manteve no poder por cerca de  cinco séculos a partir da Renascença (século 15). Ao longo deste tempo, a música chamada erudita mudou de cara  algumas vezes, sempre dentro dos parâmetros tonais,  ampliando o número de combinações, acompanhando a evolução dos instrumentos, resultando  no que se poderia chamar de novos estilos.   O Romantismo ocupou todo o século 19; passados duzentos anos,  soa aos ouvidos ocidentais (comparado com os estilos  mais antigos e, desnecessário dizer, com os modernos) como sendo a música erudita por definição, ao lhes  proporcionar prazer e mobilizar-lhes  fortes emoções.  Mesmo precedida por tremores (Wagner), a implosão do sistema tonal na virada do 19 para o 20  foi uma ruptura sem precedentes na sucessão dos estilos, inaugurando termos como dodecafonismo, concretismo, minimalismo, eletrônica, tudo isso objeto, ainda hoje, de perplexidades, dúvidas e suspeitas.  No entanto, para consolo geral, sempre será possível ouvir um lied  de Mendelsohn.

Boletim nº 138 – setembro/outubro de 2012 – Ano 23

Especial para ASA

Colunista do Boletim ASA, é músico.

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