A Jerusalém da Argentina

Biblioteca Barón Hirsch

Biblioteca Barón Hirsch

Inspirado por um You Tube que me mandaram sobre a modorrenta Moisés Ville, encravada na província argentina de Santa Fé — e onde estão bem vivos os traços da colonização judaica—, assim como por uma reportagem sobre os 62 anos do Estádio do Maracanã, decidi ir pela  contramão das datas redondas, do tipo Rio+20, cinquentenários e aniversários de cem anos, para  lembrar os 123 do início dos projetos agrícolas de judeus em nossa América do Sul, a começar pela  Argentina.
Moisés Ville, agora, é apresentada como atração turística. Dista 616 quilômetros de Buenos Aires. Pioneira na colonização agrícola, chamada de a Jerusalém da Argentina, conserva, a despeito de contar hoje com menos de 3 mil habitantes, sinagogas, museu judaico, hospital, um teatro denominado Kadima, biblioteca popular em ídish e espanhol, o primeiro cemitério judaico do país, escola judaica, ruas e casas mantidas com os velhos nomes ashquenazis, um legado que se estende até uma antiga agência do Banco Comercial Israelita, tudo em poucos quarteirões.

O começo, porém, foi, como posteriormente no Brasil, muito difícil.  Os primeiros 846 imigrantes judeus dessa leva (126 famílias), vindos da Polódia, hoje parte da Ucrânia, que chegaram a Buenos Aires em 12 de agosto de 1899, enfrentaram de cara uma política de governo muito mais voltada para a importação de trabalhadores, mão-de-obra assalariada, para os trabalhos agrícolas, do que a de colonos, sob uma grande especulação com o preço da terra recém-ocupada dos territórios ao sul.  Não obtiveram as terras que lhes foram prometidas, mais próximas da capital, e acabaram levados a morar em vagões na remota estação de Palacios, onde se construía a estrada de ferro para Tucumán.

O banqueiro Barão Hirsch
As condições de habitação eram precaríssimas, em galpões ao longo da ferrovia, com higiene deplorável, frio, ausência de alimentos e de medicamentos, o que fez com que grassasse uma epidemia de tifo, matando mais de 60 pessoas, principalmente crianças.  Foi a solidariedade de alguns colonos locais de origem italiana e o braço salvador do  banqueiro e filantropo Barão Maurice Moshe Hirsch que permitiu que fossem transportados para terras, devidamente contratadas ao grande proprietário Pedro Palacios em região próxima, onde ergueram uma vila, denominada Moisés Ville, em homenagem ao  ancestral líder da história judaica.  Contudo, significativamente, registram-se como primeiras construções dois cemitérios nas cercanias.
O Barão,  sensibilizado com a sorte dos judeus que viviam no império tsarista, discriminados, oprimidos, sem perspectivas e sob ameaça dos pogroms,  viria a criar em 1891, em decorrência desse dramático episódio, a Jewish Colonization Association – ICA em ídish.  Esta se constituía sob um sistema de financiamento a longo prazo, o qual viabilizava o acesso dos colonos a lotes de tamanho médio, equipamentos, crédito e formação agrícola  –   a imensa maioria provinha de cidades e de profissões urbanas  – , como também permitia que, com os recursos retornados, novas levas de emigrantes fossem enviadas. Assim, foi possível trazer em seguida novos colonos da própria Ucrânia, Polônia, Lituânia e Bielorrússia, tendo sido fundada uma nova colônia, a de Manigotes.  Após o pogro m de Kishinev, na Bessarábia, em 1903, o movimento migratório consolidou-se e espalhou-se  por cinco províncias argentinas.
Moisés Ville, onde 90% da população era de judeus, permaneceu o centro irradiador da cultura dos gauchos judíos.  Ao todo, formaram-se 25 colônias povoadoras até os anos 1930,  quando vieram os colonos judeus alemães perseguidos pelo nazismo.  Pesquisadores apontam que, no curso desses aproximadamente 50 anos, chegaram a residir  nas colônias  –  na década de 1920  –  cerca de 29.780 imigrantes, os quais se ocuparam de 452 mil hectares de terra (não considerando terras que foram vendidas ou arrendadas a não judeus e as impróprias para colonização).

Escola Iahaduth

Escola Iahaduth

Sonho x realidade
Com inventividade e trabalho duro, os judeus deram contribuições pioneiras à agricultura argentina, como a formação de cooperativas, equipamentos mecanizados para a colheita e para a armazenagem de grãos, novas espécies forrageiras e a diversificação de culturas.  Aperfeiçoaram o cultivo de alfafa, plantavam linhaça e trigo e criavam vacas para corte e aves.  Combateram pragas, aprenderam a montar, a tocar o gado, a atirar e a se proteger dos elementos, tanto naturais como humanos.

A visão do passado costuma ser nostálgica e embelezadora.  Os depoimentos dos descendentes dos pioneiros falam de um tempo de abundância e bem-estar naqueles campos.  Nem todos concordariam com isso, argumentando que, já nos anos 1950, os judeus haviam deixado de ser maioria na população das colônias e que estas não cessaram, no espaço de uma ou duas gerações, de perder gente.  Mesmo nos melhores anos, os que antecederam a década de 1930, para cada duas famílias que chegavam, praticamente  uma deixava a colônia rumo aos centros urbanos mais evoluídos.
Essa atração pelas cidades foi, certamente, uma das maiores causas de as colônias terem perdido sua importância, pela comodidade, pelas oportunidades que se abriam fora da vida rural, pelas chances de uma educação mais aprimorada e até de se encontrar parceiros para o casamento.   A ideia de se formarem em colonos voltados à agricultura nunca chegou a impregnar ideologicamente os judeus – como nos kibutzim –, tratando-se mais de uma estratégia de sobrevivência, de saída da Europa e  de busca da liberdade e da tolerância religiosa.  O sonho do Barão Hirsch, de transformá-los em camponeses ao estilo europeu, independentes e autossuficientes, com a terra passando de pais para filhos, perdeu força diante da realidade.
Além disso, várias outras razões se somaram. Enchentes, secas e ataques de insetos eram comuns.  Como os preços das terras na “pampa úmida” haviam subido muito, as que couberam às colônias nem sempre eram de boa qualidade, além de serem distantes dos principais centros consumidores.  Também os preços dos produtos se tornaram desestimulantes, especialmente com a Grande Depressão dos anos 1930 e, posteriormente, com as políticas do governo peronista, que, mais preocupado com as massas urbanas, impunha tetos ao que se pagava pelo que vinha do campo.
Não faltaram também desentendimentos com a administração da ICA para as colônias, tida muitas vezes como distanciada dos propósitos e problemas dos imigrantes.  Sucessivas demoras na chegada do crédito agravaram a condição dos colonos e muitos deles optaram pelo não cumprimento de pagamento dos financiamentos, o que prejudicou a operação do sistema como um todo.

Teatro Kadima

Teatro Kadima

Triunfo
Apesar de que, devido a esses fatores, restem hoje algumas poucas centenas de famílias nas antigas colônias, que boa parte das terras tenha sido vendida a  fazendeiros e agricultores não judeus e que a ICA tenha encerrado suas atividades na Argentina em 1975, há um saldo inegavelmente positivo.  Até os anos 1930 as colônias viveram o seu pico de prosperidade, calando a boca dos antissemitas e dos incrédulos, que tinham por dogma que os judeus não poderiam jamais ser agricultores e que não se adaptavam à vida rural.  Ao contrário, houve rápida assimilação da cultura local e da integração no ambiente do campo argentino, ao ponto de mudarem de hábitos e até de postura, segundo os cronistas da época, passando de figuras abatidas e estranhas àquele mundo no momento do desembarque a altaneiras e orgulhosas de suas  propriedades e conquistas produtivas.

O mais importante, talvez, foi o que destacou a pesquisadora Judith L. Elkin em seu livro Jews of the Latin American Republics: cada judeu ou sua família que escapou da discriminação e da perseguição na Europa Oriental e, depois, do Holocausto, deve ser encarado como “um triunfo em sua capacidade de encontrar lares seguros e tempo e espaço para se conduzir em novos ambientes linguisticamente, ecologicamente, comportamentalmente”.  Ponto para a colonização da ICA.
Estamos em um tempo de reviver a memória.  Formou-se a Comissão da Verdade e da Justiça, e em nenhum momento anterior surgiram tantos depoimentos inéditos para a opinião pública  sobre os anos de chumbo da ditadura civil-militar como agora.  Os jovens não a valorizam tanto, mas aqueles que cumpriram dois terços de sua existência atribuem à memória uma grande importância, pois aí identificam a perpetuidade do seu vínculo com a vida e com a história.  Moisés Ville é um exemplo vivo dessa memória que se mantém pulsante.
Vamos lá, a Jerusalém da Argentina espera por nós!

Boletim nº 138 – setembro/outubro de 2012 – Ano 23

Especial para ASA

Renato Mayer

É diretor da ASA e colaborador do Boletim ASA.

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