Rosa Goldfarb

06-4-2014

Rosinha em abril de 2014, no Pré-Seder da ASA

Chegou de mansinho, com  expressão  de curiosidade.  Ou seria de espanto? Você  é  filho  do Gruman?    Pouca gente chamava meu pai pelo sobrenome.   Olhei aquela mulher de ar travesso, que exumava uma lembrança querida. Sim, sou. Me abraçou com força, emocionada. Contou que namorara o Zissi ainda adolescente, um namorico que ela mesma terminara. Meu pai esnobado, como é que pode? Já imaginou ‒ completou sorridente e zombeteira ‒, eu podia ser sua mãe!

Foi assim que conheci Rosa Goldfarb. Ali, num banco solitário da ASA, ruminando meu destino, cruzava com um pedaço desconhecido da saga familiar dos Gruman. Com ela, orgulhosa cria dos subúrbios cariocas e membro de uma família de judeus progressistas, tive uma relação afetuosa, marcada pela terna memória comum da zona norte do Rio.

Rosinha foi uma ativista incansável da ASA. Enquanto teve forças, frequentou todas as atividades, procurou ajudar no que estava ao seu alcance. Mesmo quando seu corpo começou a dar sinais de fragilidade, batia ponto na São Clemente. Tudo bem, tirava uns cochilos, sonhando ‒ quem sabe? ‒ com uma continuidade geracional que, olhos abertos, parece cada vez mais longínqua. A geração de Rosinha, que aprendi a respeitar e admirar, combinava a dura batalha pela sobrevivência com o trabalho para materializar o projeto dos roite idn. Não conseguiria viver de maneira diferente. Sobraram poucos carregadores de piano. A militância minguou, pilotos de computador substituem ativistas, multiplicam-se os engenheiros de obras prontas. A base social do judaísmo progressista desmoronou, está apenas à espera de um réquiem. Por uma trágica ironia, talvez seja celebrado pelos descendentes dos que plantaram sonhos de maior fraternidade e justiça social.

Chamava  atenção o jeito estiloso, elegante, com que Rosinha se vestia. Um simples debate dominical, e ela aparecia, vaidosa, com um charme imbatível. Uma elegância que alguns podiam achar excessiva, mas que traduzia a alma daquela Goldfarb. Não o fazia por exibicionismo ou pretensão. Era uma forma de respeito que, hoje, entrou para o panteão dos valores extintos. Talvez mais do que respeito. O jeito colorido de vestir era uma contribuição silenciosa para trazer alegria.

Sua chama foi-se apagando aos poucos, extinguindo-se no dia 26 de agosto. Começa a transição da presença, da convivência, para a memória. Não apenas de uma época, mas de uma pessoa que, com as contradições que todos carregamos, celebrou a vida e construiu esperanças. Uma e muitas, como na letra de Dorival Caymmi: São muitas…são tantas / São todas tão rosas.

Rosa. Calorosa.  Valorosa. Amorosa.

Especial para ASA

Jacques Gruman

É diretor (licenciado) da ASA.

5 Comentários

  • Responder agosto 29, 2016

    Renato Mayer

    Muito bom ! Essa é a lembrança da Rosa que todos temos. E o seu texto mantém a sua chama de vida ainda mais forte e iluminada.

  • Responder agosto 30, 2016

    Fani Goldfarb

    Querido Gruman. Lindo seu texto. Mesmo que o namorico dos dois não tenha evoluído sinto você como um quase sobrinho. Você fala da Rosinha tão afetivamente que chegamos a sorrir apesar de termos o coração tão dolorido. Vai- se uma militante. Uma militante alegre, combativa, respeitosa e elegante. Vai- se num momento crucial para o país. Que a sua doce combatividade não se perca no tempo.

  • Responder agosto 30, 2016

    Clara Goldfarb

    Obrigada, Jacques.
    Como outra Goldfarb, posso atestar que as suas palavras, carinhosas, revelam bem quem era a nossa Rosa.

  • Responder agosto 30, 2016

    Clever Plonczynski

    Lamento a perda da Rosa. Tinha muita amizade a ela e a família, as palavras do Jacques Gruman retratam muito bem o estilo da Rosinha. Saudades.

  • Responder agosto 30, 2016

    Sylvia Grabois

    Lindas e comoventes palavras sobre Rosa. Uma rosa se foi mas outras surgirão das sementes plantadas por ela.

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