O que esconde um (não) aperto de mão*

Haaretz estampa em manchete El Shehaby rejeitando aperto de mão de Or Sasson, 12-8-2016 (1)

Haaretz estampa em manchete El Shehaby rejeitando aperto de mão de Or Sasson, 12-8-2016

Os atletas israelenses tiveram uma recepção grosseira por parte de alguns de seus adversários Nos Jogos Olímpicos do Rio. Primeiro, membros da delegação libanesa impediram a entrada dos israelenses no ônibus que os levaria à cerimônia de abertura. Depois, uma judoca saudita abandonou uma luta assim que ficou claro que em seguida teria de enfrentar uma israelense. Mas o mais escandaloso ocorreu na sexta-feira [12 de agosto] quando, derrotado por Or Sasson, o judoca egípcio Islam El Shehaby se recusou a apertar a mão do israelense. Vaiado pela multidão por quebrar a etiqueta do judô, e depois “severamente advertido” pela Comissão Disciplinar do Comitê Olímpico Internacional “por comportamento inapropriado”, El Shehaby foi mandado de volta para casa. O incidente provocou indignação em Israel. Mas, afinal de contas, uma recusa de um aperto de mãos é apenas uma recusa de um aperto de mãos. O que interessa não são os detalhes desse episódio, mas as lições mais abrangentes que ele transmite.

No mínimo, o absurdo de toda essa situação deveria estabelecer de uma vez por todas que Israel está submetido a um padrão especial. Não que Israel deva ser absolvido por ações ou políticas que merecem ser criticadas, porém só os atletas de um país são tratados dessa forma. Não passou pela cabeça de ninguém que os atletas norte-coreanos nos Jogos Olímpicos devessem ser tratados como párias em virtude do governo que têm, e é assim que deve ser (e se você, por alguma razão, acha que o governo de Israel e Bibi Netaniahu merecem mais críticas do que o governo da Coreia do Norte e Kim Jong Un, por favor pare de ler este texto porque está perdendo seu tempo). E decidir que os atletas israelenses merecem de fato ser responsabilizados por qualquer coisa que Israel faça não acabará necessariamente apenas em comportamento descortês e falta de espírito esportivo, conforme atesta o massacre dos atletas israelenses em Munique, na Olimpíada de 1972.

A esnobada também diz algo sobre identidade e nacionalismo, e ilumina o dilema enfrentado por muitos judeus americanos, particularmente os universitários e aqueles que frequentam círculos progressistas. El Shehaby é egípcio e representa um país que tem um tratado formal de paz com Israel; na verdade, a cooperação israelense-egípcia nunca esteve tão sólida. No entanto, a sua recusa em apertar a mão de Sasson foi um ato em apoio aos palestinos, grupo com o qual ele claramente simpatiza e se identifica. Essa identidade é tão forte que El Shehaby preferiu aceitar uma repreensão oficial e arriscar uma punição ‒ nenhuma das quais serve aos interesses egípcios ‒, a fim de apoiar os seus compatriotas palestinos. Muitos judeus americanos sentem igualmente uma ligação forte com os judeus israelenses, e a sua identidade está entrelaçada com o apoio a Israel. Então, quando o preço para ingressar em círculos progressistas é a exigência de que os judeus americanos renunciem a Israel, cria-se uma genuína crise de identidade, uma vez que judaísmo e sionismo nem sempre podem ser facilmente separados. Ao criticar os atos de El Shehaby, ninguém exigiu que ele retirasse o seu apoio à causa palestina. Seria bom se aos judeus americanos fosse concedido o mesmo nível básico de compreensão.

Pior que o BDS

O aperto de mão propriamente dito escamoteia uma barreira maior que precisa ser transposta. Tenho visto gente admitir que El Shehaby se comportou mal, mas o justificam com o fato de que, se ele tivesse apertado a mão de Sasson, correria perigo ao voltar para casa. Isso desabona uma sociedade que na prática estaria criminalizando um aperto de mão por causa de uma identidade nacional, o que deveria provocar uma crítica e não uma justificativa. Porém ‒ mais importante do que isso ‒, o fato de que, quase quatro décadas após o tratado de paz egípcio-israelense e o estabelecimento de relações diplomáticas, simplesmente apertar a mão de um israelense possa pôr em risco a integridade física de um egípcio exemplifica da melhor maneira por que as meras relações entre governos não são suficientes. O governo israelense aponta a sua cooperação com Estados árabes como prova de que está rompendo o seu isolamento regional, mas a aceitação tem mais a ver com atitudes sociais do que com relações entre Estados, já que as primeiras nunca seguirão estas últimas, mas, ao contrário, estas seguirão aquelas. Sem uma interação rotineira e insistente, as estruturas que fazem os israelenses se sentirem tão isolados não cairão, não importa quanto Israel ajude o governo egípcio a combater o ISIS no Sinai ou quanto Israel compartilhe dados de inteligência com o governo saudita. Por esta mesma razão a campanha antinormalização montada por palestinos contra israelenses constitui uma ameaça muito maior do que o BDS [Boicote, Desinvestimento, Sanções], pois, ao se tornar comum para os palestinos tratar os israelenses da forma que os egípcios fazem, toda esperança de resolução duradoura do conflito israelense-palestino ao nível da sociedade terá se esvaído.

Um último pensamento: seria um interessante teste social ver se um judoca egípcio ou um iraniano recusaria apertar a mão de um atleta israelense árabe alegando apoiar a causa palestina. Afinal, se os israelenses estão sendo rejeitados porque são considerados coletivamente responsáveis pelos atos do seu governo, isso deveria aplicar-se em geral a todos os atletas israelenses. Algo me faz suspeitar de que aqueles que apoiam e consideram a atitude de El Shehaby uma maneira legítima e relativamente inofensiva de protesto político e que alegam que isso nada tem a ver com judeus, mas apenas com Israel, agiriam de forma diferente se El Shehaby esnobasse um árabe de Um a-Fahm em vez de um judeu de Jerusalém.

 

* Publicado no site do IPF em 18 de agosto de 2016 (título nosso).

Diretor do  Israel Policy Forum, sediado em Washington.

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