Cem anos nos separam *

Sholem_Aleichem_funeral, 15-05-1916

Funeral  de Sholem Aleichem, 15-05-1916

Em 13 de maio de 1916, falecia em Nova York Scholem Aleichem, escritor e promotor da cultura e da literatura ídish, patrono da nossa associação.  Seu mundo, o dos shtetlech e da mame loshn – a língua materna ‒, também não sobreviveria por muito tempo, vítima da barbárie humana e da mudança das condições materiais e sociais sobre as quais estava assentado.  No entanto, nos tempos de acirrada desigualdade em que hoje vivemos, não há como desdizer o contista magistral, nascido Scholem N. Rabinovich: “A vida é um sonho para o sábio, um jogo para o tolo, uma comédia para o rico e uma tragédia para o pobre.”

Eis um escritor que inicia sua carreira de uma forma, no mínimo, curiosa.  Tendo começado a escrever em hebraico e em russo, troca seu patronímico para o pseudônimo Scholem Aleichem em 1883, com 24 anos de idade, e passa a publicar em ídish, língua na qual se notabilizou com mais de 40 volumes.   Ao adotar o novo nome – Que a paz esteja convosco ‒, uma saudação comum a judeus e árabes, buscava não se diferenciar, mas, ao contrário, expressar a visão do homem comum, do judeu anônimo, do tipo popular da Europa Oriental que se encontrava nas ruas, no mercado, na casa em frente.  O povo, a mensagem de paz, o manejo das palavras, o toque de humor são suas marcas.

As fontes para sua obra se combinam: a social, que é o mundo dos habitantes do shtetl; a tradição religiosa, que não opõe em seu texto o misticismo judaico à razão, mas, antes, promove a sua convergência; e a cultural – a literatura ídish e, com peso quase igual, a russa, em particular a das histórias curtas.  O imaginário do escritor configura um pintor, à semelhança de Chagall, e a música klezmer.  Dizia: “Em todas as partes, notadamente nos Estados Unidos, país onde resido uma boa parte do ano, a grande maioria dos judeus e dos não judeus sabe como os judeus morrem, mas ignora como eles vivem e continuam vivendo.”

Shlemiels e shlimazels

Scholem Aleichem projetou a língua ídish, considerada até sua época como pouco mais do que um jargão, em um trabalho minucioso de colecionador, arquivista e transformador.  Escrever em ídish naquele tempo era uma proeza, uma performance.  Mas sua preocupação de comunicar-se com o grande público e com o maior número de pessoas, em uma relação de troca e de exploração ao máximo das potencialidades de sua língua materna, o levou definitivamente a adotá-la como meio de expressão.

No folclore judaico, os shlemiels e os shlimazels são os patéticos azarados, para os quais tudo dá errado. (Diz-se que o shlemiel  é o desastrado que deixa cair o prato de sopa … em cima do shlimazel!)  Vivem de esperança e da incansável batalha pela existência, como um dos mais famosos personagens do nosso escritor, Tevie, o leiteiro, que afirma: “Enquanto existir uma alma no meu corpo e sangue em minhas veias, um judeu não deve perder a confiança.”  Suas desventuras são a matéria-prima de Scholem, tratadas de um modo até ridicularizado, mas tão somente com a caridosa intenção de minimizar os problemas deles para milhares de outros Tevies, os destituídos empenhados no duro cotidiano pela sobrevivência naqueles confins da Rússia, Ucrânia e Polônia.  

Desse material, ele saberá extrair e sintetizar a essência, um caldo composto de sabedoria e ingenuidade, mistura de elocuções, coloridas e prolixas em metáforas, enraizadas no alemão antigo, no hebraico e nas línguas eslavas e refundidas no cadinho da linguagem oral, o fermento de uso cotidiano do ídish.

Lembrando por vezes versículos do Pentateuco, as frases de seus personagens, recompostas e configuradas de acordo com as circunstâncias, formam uma prodigiosa colcha de retalhos, colagem da língua profana com a sagrada, plena de causticidade e astúcia, de trocadilhos e jogos de palavra que fizeram a alegria dos seus leitores em ídish, incentivando o seu olhar irônico para o saber acadêmico e as regras rígidas das normas cultas.

Com Scholem Aleichem a escrita alcança a plenitude da verve satírica e do poder desencadeador do humor. Um tesouro permanente e inesgotável para os judeus do mundo ashquenazi.  

Especial para ASA

 

* Adaptado e modificado por Renato Mayer, a partir de artigos de Bernard Frederick e Charles Dobzynski publicados na edição nº 337 da Presse Nouvelle Magazine de junho de 2016.

 

Renato Mayer

É diretor da ASA e colaborador do Boletim ASA.

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