Uma palavra malvista

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Datas centenárias sempre suscitam celebrações. Neste caso, a celebração é duvidosa, pois trata da criação, pelo Senado de Veneza, em 29 de março de 1516, do local de confinamento (mas também de proteção) dos judeus da cidade. A partir dessa data, os 700 ou 800 judeus de Veneza, sem exceção, passaram a só poder habitar no território do chamado Ghetto Nuovo, uma antiga fortaleza do bairro de Cannaregio, cercada de paredões e portas muradas que os separavam da população cristã.

O local escolhido pelas autoridades venezianas era um depósito insalubre da antiga Nova Fundição de cobre. O edito ordenava um toque de recolher da meia-noite até de manhã, marcado pelo bater dos sinos da Basílica de São Marcos, e o controle permanente dos três acessos ao gueto por guardas cristãos pagos pela comunidade judaica. À noite, dois barcos faziam regularmente a ronda para assegurar a segurança do bairro.

Para concentrar os judeus nessa ilhota de um hectare, as autoridades expulsaram a população cristã de suas moradias, vendidas ou alugadas a bom preço para os novos ocupantes. A decisão do Senado trazia algumas compensações aos judeus, já que significava concordância com a sua presença na cidade, autorizava as salas de oração e os rabinos, os shochets – os abatedores rituais – e as escolas judaicas, até então operando na clandestinidade.

Foi a reação de uma república mercantilista pragmática a um antijudaísmo exacerbado. Antes mesmo da criação do gueto, a República de Veneza havia atraído judeus, proporcionando-lhes liberdades de que não dispunham em outras partes, o que provocou a cólera dos fundamentalistas cristãos que propugnavam sua exterminação. Em 1513 e 1514, a peste grassou na cidade. Os pregadores incitavam o ódio e atribuíam a culpa aos judeus. Os incêndios criminosos que decorreram ameaçaram, porém, a própria cidade, cujo governo passava por grave crise financeira. Havia, portanto, necessidade dos judeus, que movimentavam volumosos recursos e detinham práticas de banqueiros, assim como de seus médicos, formados no Cairo e em Damasco, onde a medicina estava muito mais avançada que na Europa. O Senado de Veneza percebeu na tolerância acordada uma possibilidade sempre palpável de drenar fundos.

Modelo

Seja como for, a situação dos judeus na Europa era de tal forma humilhante que, vinte anos depois da entrada em vigor do decreto, intelectuais judeus começaram a divulgar o “modelo” veneziano, contribuindo assim para sua reprodução. Os comerciantes e mercadores levantinos do Império Otomano obtiveram em 1541 a autorização para constituir um gueto vizinho a partir de uma fundição ainda mais antiga, o Ghetto Vecchio. Ali, iriam erguer sinagogas magníficas, ainda hoje existentes. Com os dois guetos atraindo judeus perseguidos em outros lugares, em especial da Espanha e de Portugal, mas também do mundo ashquenazi, sua população cresceu consideravelmente e, à falta de espaço, levantaram construções mais altas, os “arranha-céus da laguna”.

A fama dos guetos de Veneza se prolongou mesmo após o declínio da República. Durante a quinta guerra austro-turca, chamada de Grande Guerra, e que de 1683 a 1699 contrapôs o Império Otomano ao Santo Império Romano-Germânico, a autoridade veneziana pressionou os judeus como nunca antes e depois sucumbiu. O movimento migratório chegou a se inverter: muitos comerciantes judeus deixaram a cidade por uma Turquia mais tolerante.

Em 1797, Napoleão pôs um final na milenária República de Veneza e, por consequência, veio o declínio dos guetos. A administração francesa, lá, como também nos territórios germânicos que viriam a ser anexados nas conquistas do Grande Imperador, instaurou a igualdade de direitos, a emancipação dos judeus e a sua elevação à condição de plena cidadania. A restauração que se seguiu às derrotas napoleônicas, porém, deu marcha-atrás em muitos desses progressos. Em terras peninsulares, os judeus só iriam reviver a igualdade de direitos em 1866, após a unificação e a constituição do reino da Itália. Com a emancipação dos judeus, os guetos, já em decadência, desapareceram, sendo o último, o de Roma, em 1870.

O termo gueto provém de gettare, forma como os venezianos se referiam ao ato de depositar, jogar, descartar, numa alusão indireta à área de agrupamento compulsório dos judeus. Já os nazistas alemães, embora os criassem por onde passavam, evitavam a palavra, substituindo-a por Bezirk – distrito, região, setor administrativo. A França moderna consagrou o politicamente correto, denominando quartiers de relégation os redutos suburbanos para onde remete os imigrantes, os refugiados e a sua população mais desfavorecida. Referidos apenas como quartiers – bairros.

Gueto virou, pois, uma palavra um tanto malvista. Bem lembrada, porém, pela professora universitária e estudiosa do urbanismo Donatella Calabi, que acaba de publicar a obra Ghetto de Venise 500 ans pela editora Liana Levi. É um dever nosso, para com a nossa história enquanto judeus, não permitir que seja apagada da memória.

 

Publicado originalmente na Presse Nouvelle Magazine, nº 336 – maio de 2016. Tradução e adaptação de Renato Mayer

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