Se eu tivesse que elaborar o currículo

Roque Gameiro, A Expulsão dos Judeus, aquarela

Roque Gameiro, A Expulsão dos Judeus, aquarela

Como currículo não é amontoado de conteúdos, é arranjo de temas conforme os objetivos que se deseja alcançar, o meu currículo dos sonhos é assim como o de Scliar: privilegia o ponto aonde se quer chegar e vale para judeus, ateus e seguidores de todas as religiões, estudantes de qualquer escola, religiosa ou laica, pública ou privada.

É importante que os alunos aprendam que a experiência judaica não é dissociada da História da Humanidade, e muito menos da História de índios, negros, portugueses, espanhóis, holandeses e tantos outros que, juntos, formaram este país. E que, se a mistura faz parte da experiência humana, não poderia estar ausente da trajetória dos judeus também. Se é importante mostrar que muitos dos cristãos-novos que aqui chegavam desde o início do século 16 eram secretamente judaizantes e assim permaneceram por toda a vida, é igualmente relevante ressaltar que muitos se tornaram, por crença, cristãos. E outros tantos cristãos-novos se relacionaram com cristãos-velhos, e também com negros e índios. Façamos o elogio da mistura.

E como não existe História sem conflitos e ambiguidades, nada mais interessante do que mostrar que os judeus que chegaram ao Brasil no breve período da ocupação holandesa no século 17 – aqueles mesmos que construíram a primeira sinagoga das Américas (sinto muito, mas não é verdade que eles tenham saído do Brasil para fundar Nova Iorque; fundaram a primeira comunidade judaica da cidade) – nem sempre se relacionavam bem com os cristãos-novos que viviam em Pernambuco e na Bahia; e que alguns daqueles que se dedicavam ao comércio integravam, seja como negociantes, seja como financiadores, a lucrativa rota do tráfico de escravos que tanta exploração e tristeza trouxe a este país.

Não ao sectarismo

Igualmente relevante é mostrar que os muitos imigrantes judeus que vieram de lugares tão diversos como Rússia, Polônia, Turquia, Marrocos e Alemanha do início do século 19 ‒ quando a presença de judeus e protestantes passou a ser tolerada no Brasil ‒ até pelo menos a década de 1950 criaram instituições tão diferentes como seus países de origem, seus idiomas, seus costumes religiosos e suas orientações políticas. Ao longo do século 20 foram fundadas sinagogas, clubes, bibliotecas, escolas, grupos políticos judaicos. Quando foi necessário, estas instituições se uniram e criaram ações de ajuda mútua para socorrer as vítimas do antissemitismo. Mas suas divergências, dissidências e discussões também são expressão da riqueza da diversidade judaica.  

É conhecido o ditado “onde há dois judeus, há três opiniões”. Para alguns daqueles que viviam no Brasil do pós-guerra, por exemplo, o sionismo era uma referência fundamental, e pela criação e manutenção do Estado de Israel eles lutaram. Para outros, Israel não passava, literal e metaforicamente, de um lugar distante. Nossos alunos podem muito bem aprender com estes exemplos não só o valor da diversidade, mas também o da discordância e do diálogo. Neste ponto, a experiência histórica dos judeus no Brasil é uma boa maneira de reforçar o valor do respeito à diversidade de culturas e religiões.

Como continua Scliar, “gostaria que o meu filho não fosse um sectário”. Não queremos que nossos alunos sejam sectários. O estudo da experiência judaica no Brasil deve ser um libelo contra o sectarismo, contra a intolerância, contra os dogmatismos. Para isto, estudemos temas como a expulsão dos judeus da Espanha e de Portugal, a Inquisição portuguesa e o Holocausto. E que este não seja ensinado apenas como um apêndice da Segunda Guerra Mundial, mas como aquilo que de fato foi: um crime contra a Humanidade.

Aí é que está o ponto principal. O elogio à diversidade e à diferença só é plenamente compreendido se for atrelado ao reconhecimento da semelhança. Somos todos diferentes, mas semelhantes em nossa humanidade. Reconhecer que a condição humana nos torna fundamentalmente iguais é o que permite compreender que ataques e preconceitos contra os judeus e contra qualquer grupo são atentados a todos nós. É também o que possibilita que nossos alunos desenvolvam a capacidade de sentir empatia pelo outro. Afinal, terminando novamente com Scliar, “sentir é tão importante como saber”. Que os nossos alunos saibam e sintam que fenômenos como o antissemitismo e o racismo são intoleráveis. Estes são os temas indispensáveis de qualquer currículo de História Judaica, de História do Brasil. De qualquer aula de História.

Especial para ASA

Keila Grinberg

Historiadora e professora do Departamento de História da UNIRIO.

1 Comentário

  • Responder julho 2, 2016

    Jacques Gruman

    Muito bom, Keila. Embora extremamente difícil de implementar, um ensino que respeite as diferenças é matéria-prima essencial para a convivência democrática. Quem acompanha as redes sociais pode perceber o nível preocupante de sectarismo e desinformação que alimenta o ódio e o preconceito. Pior: vindo de pessoas que passaram por “boas escolas” e “famílias educadas”.

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