Do mito de Babel à prisão dos signos

Para o Ano Internacional do Entendimento Global

Unesco, 2016

Gustave Doré, Torre de Babel, gravura, 1865

Gustave Doré, Torre de Babel, gravura, 1865

Costuma-se chamar de mito as histórias que, transmitidas de geração em geração, explicam a origem das coisas ou guardam uma lição ao modo das parábolas. A história da Torre de Babel tem sido interpretada como narrativa sobre o surgimento das línguas, o que Jean-Jacques Rousseau, em seu Ensaio póstumo, muito mais tarde tentou compreender através da filosofia. Para Rousseau, a linguagem marcaria a diferença entre os homens e os animais, e sua origem não estaria nas necessidades, mas nas paixões. “As necessidades ditaram os primeiros gestos, mas as paixões arrancaram as primeiras vozes.”

Contudo, o mito da Torre de Babel, contado nos versículos 1 a 9 do capítulo 11 do Gênesis, vai além de explicar como apareceram as diversas línguas. Deus teria se irritado com o projeto de construção da torre que chegaria ao céu, e a ousadia foi castigada com o desentendimento entre os homens. “Eles formam um só povo e falam uma só língua. Isto é apenas o começo de seus empreendimentos. Agora, nada os impedirá de fazer o que se propuserem. Vamos descer ali e confundir a língua deles, de modo que não se entendam uns com os outros.” Há, nesta narrativa, a lição de que não se deve ambicionar transcender a condição humana ou emancipar-se do mundo terreno.

Nos tempos bíblicos, não havia o inglês como língua universal, tampouco os programas informatizados de tradução. Nem mesmo todos os povos possuíam a linguagem escrita (é certo que alguns ainda não têm), muito menos havia uma rede mundial de computadores interligados através da Internet. O mundo hoje está em constante trânsito de informações, comunica-se de maneira praticamente integral e instantânea, e foram construídos enormes arranha-céus a despeito da intolerância divina, como o Burj Khalifa Bin Zayid, de Dubai, Emirados Árabes Unidos, com 828 metros de altura e 160 andares.

Deus não conseguiu impedir a progressiva emancipação da natureza através da tecnologia, o desenvolvimento e a aceleração das comunicações. A ciência espacial levou o homem à Lua e mantém alguns orbitando o globo; os telescópios, cada vez mais potentes, e as sondas que viajam para além do Sistema Solar, identificaram buracos negros, estrelas e centenas de planetas, dezenas deles em condições habitáveis, embora a mais de 40  anos-luz; robôs de inspeção já pousaram em Marte e também sobre asteroides em movimento, e a atmosfera terrestre está virtualmente riscada por centenas de rotas para aeronaves.  

Porém, na mesma medida em que os contatos interpessoais são facilitados globalmente pelos sistemas de comunicação, em que a Internet pode ser considerada um emblema desta fase atual da Humanidade, percebe-se uma grande dificuldade de entendimento. Parecem, aliás, ter aumentado as possibilidades de mal-entendidos através da palavra escrita à distância, mesmo entre pessoas próximas. Desacompanhada de outros elementos importantes da comunicação (postura, gestos, tom de voz, entonação, olhar), a escrita, como um substituto da fala, tem-se revelado fechada à relativização.

Escrita x relações face a face

Para os estruturalistas herdeiros de Ferdinand de Saussure, os signos ou palavras são compostos de conceito e imagem acústica, significado e significante, de sentido e som, como diria Wisnik, que transcendem a materialidade das coisas significadas e se encontram num plano lógico que podemos chamar de virtual. Os signos diferenciam-se uns dos outros por traços distintivos, os fonemas, compondo entre si um sistema lógico a que chamamos língua (langue) atualizado através da fala (parole).

Em Fedro, Platão se revolta contra a invenção da escrita, responsabilizando-a pela perda da capacidade de memorização. Nas palavras de Tamuz, personagem citado por Sócrates nos Diálogos de Platão, a escrita “tornará os homens esquecidos, pois deixarão de cultivar a memória. Confiando somente nos livros escritos, lembrar-se-ão de um assunto apenas exteriormente e por meio de sinais, não por si mesmos”. A escrita seria impessoal, distante, exterior ao indivíduo; o ideal, neste caso, é decorar, falar pelo coração.

Jack Goody observou, em A lógica da escrita e a organização da sociedade, que a escrita é um sistema de lógica autônoma capaz de ultrapassar a província onde foi criada e espraiar-se pelas muitas regiões do globo. Recentemente, a escrita vem conquistando o posto de mediadora das relações interpessoais, a ponto de substituir as relações face a face. Os signos, ao tomarem o lugar das relações que hoje chamamos “presenciais”, eliminam a dimensão da experiência que decorre do distanciamento das palavras através do tempo transcorrido, condição fundamental para o entendimento humano. Apenas a vivência, associada ao tempo, é capaz de escapar ao imperativo das classificações que organizam a sociedade de modo hierárquico e desigual.

Como ensina Émile Durkheim, a sociedade produz uma ordem classificatória composta de representações coletivas que se impõem aos indivíduos. Mas as representações podem ser apropriadas e transformadas através do processo de individuação possibilitado pela experiência particular. Um sistema impessoal de signos, não mediado pela individuação, transformaria os indivíduos em autômatos programados ou títeres obedientes aos comandos classificatórios que ordenam a linguagem.  

Quando Gertrude Stein escreve “Rose is a rose is a rose is a rose”, tradução poética do princípio de identidade, “as coisas são o que são”, a autora não imaginava que o pensamento concreto tornar-se-ia dominante. A razão sincrônica se transformou em uma tendência que ameaça tanto a poesia quanto a ironia e o senso de humor. Predomina a lógica imediatista, que não separa o momento da apreensão do da interpretação, tão contrária à diacronia do Iluminismo, utopia da educação em direção à igualdade e liberdade entre as pessoas, povos e nações.

Se lutávamos contra racismo, antissemitismo, etnocentrismo, machismo, homofobia, tentando mostrar que as representações sociais do que seriam o “negro”, o “judeu”, o indígena”, a “mulher”, o “homossexual”, fundamentavam-se em pré-conceitos, os movimentos de ação afirmativa insistem nas classificações socialmente construídas quando o referente humano, que escapa às classificações, está cada vez mais distante. Se os “israelenses” devem ultrapassar o termo “palestino” e aproximar-se do indivíduo real e igual que vive do outro lado da fronteira, é necessário bem mais que lançar garrafas ao mar de Gaza, como sugere Valérie Zenatti.

Os nomes são apenas invólucros inflados pela subjetividade expropriada dos indivíduos. Sozinhas, as palavras menos promovem o entendimento que separam as coisas, pessoas, comunidades, classes, povos, nações.  Tal como no mito da torre que atravessaria o céu, inacabada pelo castigo da incompreensão, também vivemos os limites de nosso projeto de emancipação. Mas a Babel contemporânea está na impossibilidade de ver o mundo além dos signos que ganharam o peso dos estigmas e se converteram em prisão.

Ultrapassar as classificações da linguagem corresponde a colocar-se no lugar de um Outro, não apenas no lugar de um outro nome. Significa recuperar o sentido que Rousseau deu à palavra, de sonoridade motivada pela empatia e que tem no pathos (emoção) sua origem, identificação humana capaz de superar a identidade de grupo. Mas isso exige que se abandone o imediatismo para o cultivo de um olhar semelhante ao dos escritores que recriam a vida, sem nenhum medo de arrancar de Deus o monopólio da simbolização.

Especial para ASA

Samira Feldman Marzochi

Professora adjunta do Departamento de Sociologia da UFSCar – Universidade de São Carlos. É colunista do Boletim ASA.

1 Comentário

  • Responder julho 30, 2016

    Mauro Band

    Ótimo artigo. Lúcido, claro e inteligente.

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