Scholem Aleichem, a nossa lágrima sorridente *

Scholem Aleichem

Scholem Aleichem

Em 13 de maio de 1916, numa manhã de sábado, após doenças e sofrimentos e depois da terrível tragédia sofrida com o falecimento de seu filho Misha, morreu em Nova York, aos 57 anos, o clássico da moderna literatura judaica, nosso escritor popular Scholem Aleichem.

A crônica daquele tempo nos conta:

“Centenas de milhares de pessoas, unidas na dor pela

              grande perda, acompanharam seu inesquecível escritor.

              Nova York jamais presenciou um funeral como esse. Não

              somente a imprensa judaica, mas também os jornais americanos

              deram ampla cobertura ao acontecimento, e publicaram

              em grandes manchetes nas primeiras páginas: Faleceu o

               Mark Twain judeu.”   

À beira da sepultura falaram Scholem Asch, Avraham Reizen, Morris Wintchevsky, Nachman Sirkin, Leon Motzkin e Schmaryahu Lewin. Assim como o povo simples, os pensadores e escritores das mais variadas tendências ideológicas estavam unidos na dor e no amor ao grande artista nacional. E no Congresso Americano, William Bennett, um lutador liberal pela livre imigração, fez um impressionante discurso sobre Scholem Aleichem, lendo no final seu testamento, que foi depois publicado na íntegra no Órgão Oficial do Congresso dos Estados Unidos, pois Scholem Aleichem também era reconhecido e admirado por amplas camadas do povo americano.

Nos dois primeiros dos dez pontos de seu testamento, assim escreve o autor:

“A. Onde quer que eu morra, que me enterrem não entre aristocratas ou

                  ricos, mas entre judeus simples, trabalhadores, entre o povo verdadeiro,

                  de forma que a lápide a ser erguida ilumine os túmulos simples ao meu     

                  redor, e os túmulos simples enfeitem  a minha lápide assim como o povo

                  simples e honesto iluminou, durante toda a minha vida, seu escritor

                  popular.”

              “B. Nenhum título ou elogio deve constar na minha lápide, somente o nome

                Scholem Aleichem de um lado e a inscrição anexa do outro.”

A inscrição que segue é o famoso epitáfio, cuja primeira versão ele redigiu em Kiev, em 1905, após sobreviver a um terrível pogrom. Começa com as seguintes linhas:

“Aqui jaz um judeu simples. Escreveu ídish-daitch para mulheres e para

               o povo simples. Era um escritor humorista.”

Gorki: “ri e chorei”

Genro e tradutor de suas obras para o hebraico, o escritor I.D.Bercovicz nos conta que, na infância, Scholem Rabinovitch, que mais tarde se tornaria Scholem Aleichem, o mais popular escritor da literatura judaica, era uma criança alegre, vivaz e brincalhona, cheia de ímpeto e energia, com um inato senso de humor. Gostava de observar o ridículo e cômico nas pessoas e imitá-las alegremente. Mas o que mais amava era fazer os outros rirem. É tão bom e prazeroso alegrar as pessoas! Era também um sonhador que apreciava histórias fantásticas. Sonhava com um grande tesouro que diziam estar escondido embaixo da montanha perto da qual costumava brincar com seus amigos. Ah, se eu achasse o tal tesouro… Ele ajudaria e enriqueceria todos os pobres e necessitados de sua cidadezinha, Voronko.

A obra de Scholem Aleichem, mais do que literatura, reflete a vida peculiar de um povo inteiro, uma vasta enciclopédia literoartística da vida, costumes, hábitos e festividades de milhares de personagens de todas as camadas sociais, com seus perfis psicológicos,  maneiras de falar, gesticulações, humor e sabedoria popular.

Ele imortalizou uma época inteira da vida judaica na segunda metade do século 19 e no início do século 20 na Rússia tsarista. Sua criação artística é iluminada com seu sorriso caloroso e sua bondade cordial. Suas numerosas obras, entre elas o romance autobiográfico Funem iarid (Da feira), Motl Peisi dem chazns (Motl, o filho do hazan), Menahem Mendl, Têvie der mílchiker (Têvie, o leiteiro) e  fabulosas histórias infantis, a maioria conectada com festas judaicas, são como uma chave para a psique coletiva judaica.

É interessante notar que Scholem Aleichem, com seus originais personagens de caráter específico nacional judaico, tornou-se um artista universal, parte da literatura mundial, traduzido para cerca de vinte idiomas. Não somente por causa da genialidade artística e do humor singular, mas porque seu canto sobre o povo simples com a grandeza de sua alma e  elevada moral fala ao coração dos homens simples de todos os povos. Maximo Gorki, um dos maiores escritores russos, ao término da leitura de Motl Peisi dem hazns, assim escreveu ao autor, em 1910:

        “Meu estimado irmão

         Recebi o seu livro. Ri e chorei. Ele me agrada muito. Repito:

         um livro excelente! Brilha inteiramente com um fino,

         autêntico e sábio amor ao  povo. E um sentimento como este é

         muito raro nos dias atuais.”

Só para contrariar

O amor de Scholem Aleichem ao povo é inseparável de seu amor à linguagem do povo (mame loshn). Com seu apurado ouvido musical, sentia o ritmo específico da língua. Gostava de ouvir seus personagens e deixá-los falar, anotando diretamente da boca do povo os chistes, aforismos, provérbios, ditos e expressões populares. Com sua genialidade linguística, elevou o ídish à maestria e construiu o mais elevado monumento linguístico da literatura judaica.

Cada povo ri à sua maneira, possui sua risada íntima, um resultado de seu destino histórico. Um renomado pensador afirma que somente o homem é capaz de rir, só ele sofre tanto que precisou inventar o humor para aliviar a dor. E quem tanto sofreu quanto o povo judeu devido a seu trágico destino histórico? Inventou um gênero humorístico específico: o riso através de lágrimas e sangue, o riso de um povo que luta obstinadamente por sua vida, preservação e continuidade.

Scholem Aleichem era consciente da função social do humor. Em uma carta ao amigo  escritor I. Ch. Ravnitski, ele escreve:

“Eu lhes digo que é um mundo feio e malicioso.

         Só para contrariar, não se deve chorar, somente rir.

         Se querem saber, esta é

         a verdadeira fonte de meu humor.”

Em seu já citado epitáfio, ele se apresenta como um judeu simples. E ele o era na realidade. Abominava a pose, a cerimônia, a ostentação. Sentia-se bem no meio do povo, relacionando-se com todos de forma familiar, natural e gentil. Porém, não era tão simples na sua criação. O historiador Shimon Dubnov o chamava de “o filósofo sorridente, o filósofo do humor”.

Scholem Aleichem conheceu bem a tragédia de seu tempo na Rússia tsarista e, com seu olhar artístico, penetrou profundamente em todos os cantos da vida judaica. Ele descobriu também na pobreza as forças vitais do seu povo.

Os judeus em Kasrílevke (nome simbólico dado pelo autor a todas as cidadezinhas da Europa Oriental) são pobres, porém alegres, e não perdem seu humor nas piores circunstâncias. No momento histórico de passagem da cidade pequena para a grande, do velho para o novo, do atraso para o progresso, eles são cômicos em seus modos provincianos, nas reações infantis ao progresso que começa a adentrar suas vidas, mas cheios de ímpeto e dinamismo. Scholem Aleichem os observa com o olhar de uma criança e junto com eles se alegra e ri. Kasrílevke e seus personagens são uma fonte viva de alegria, comicidade e humor, um novo motivo que ele introduz na literatura judaica.

Menahem Mendel, um personagem já da cidade maior, é uma figura tragicômica que, devido às condições anormais de sua existência, pela falta de uma base sólida, torna-se um sonhador fantástico, um cego entusiasta. É um indivíduo quixotesco, sem ocupação definida, cujos negócios não se sustentam na realidade, são pura ilusão de sua excitada fantasia. Ele sofre um fracasso após outro, cai, levanta-se, e recomeça sem a mínima chance de sucesso. Mas não perde o entusiasmo e a esperança. É ingênuo como uma criança. Mas em condições socioeconômicas normais, com sua obstinação e energia, poderá operar milagres. Assim realmente aconteceu com os Menahem Mendels em vários países para os quais imigraram.

Têvie der mílchiker [Têvie, o leiteiro] é, sem dúvida, a figura mais célebre dos personagens de Scholem Aleichem. Morador de uma aldeia, judeu simples de natureza filosófica, filosofa mais com o coração do que com a cabeça. Absorveu o melhor e o mais belo de seu povo com uma visão humorística do mundo. É a sabedoria popular absoluta. Apesar de ser um judeu crente tradicional, compreende os jovens da nova geração com suas ideias socialistas e não coloca obstáculos ao casamento da filha Hodel com um jovem que é preso e exilado para a Sibéria. Passa por uma tragédia após outra, suportando-as estoicamente, com um sorriso doloroso nos lábios. Quando os anti-homens do regime tsarista invadem seu lar com uma ordem superior de expulsá-lo da aldeia e começam a devastar sua casa, ele assiste à barbárie com olhar de ironia e desprezo pelos malfeitores em sua insignificância humana. Não se desespera, não deixa de acreditar na força superior da bondade e não perde a esperança vinda, mais cedo ou mais tarde, de um mundo justo e fraterno.

O humanismo de Scholem Aleichem e seu incomparável senso de humor revelou-se de uma maneira mais expressiva na figura de Têvie, que conseguiu a admiração do mundo inteiro através da literatura, do cinema e do teatro.

Scholem Aleichem sentiu-se feliz por ter sido o predestinado a causar prazer e alegria ao povo, e nós nos sentimos felizes e orgulhosos por nosso povo ter produzido uma tão brilhante e fenomenal personalidade artística ‒ Scholem Aleichem, a nossa lágrima sorridente.

Especial para ASA

 

* Condensado do artigo com o mesmo título escrito para o Boletim ASA nº 41 (jul-ag de 1996), por ocasião do 80º aniversário da morte de Scholem Aleichem.                                                                                   

O professor Pejsach Tabak (1908- 1997) foi diretor das escolas Sholem Aleichem e Eliezer Steinbarg e secretário geral do Instituto Israelita Brasileiro de Cultura e Educação.

1 Comentário

  • Responder maio 6, 2016

    Mauro Band

    Um belo texto sobre nosso grande escritor.

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