DESORDEM, ESTIGMA E SEGREGAÇÃO

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Observa-se, na história das sociedades, que os períodos de crise econômica e política sempre vitimaram certos grupos, em geral minoritários e já estigmatizados, sobre os quais se despeja o ódio da revolta contra a desordem social. Os vitimados ao longo da história têm sido, sobretudo, mulheres, homossexuais, negros, judeus, deficientes físicos ou mentais, ciganos, comunistas. Mas é importante destacar que a noção de “minoria” não designa grupos minoritários em número de indivíduos, e sim dotados de traços considerados “desviantes” face ao modelo socialmente construído de normalidade.

Nas sociedades mais simples, os indivíduos que não correspondem ao padrão de comportamento definido pela cultura podem ser culpados por secas e doenças, e sofrer punições como banimento e morte. O pensamento dito “primitivo”, que é também o nosso, entende que a presença de um elemento minoritário exerce sobre o grupo um efeito de desestruturação igualmente simbólica e real, pois quebra a relação de causa e efeito cosmológica que garante a reprodução da ordem.  

Assim é possível ler a invenção das bruxas na Idade Média como mulheres que não atendiam ao comportamento esperado, eram responsabilizadas por eventos malignos que ocorriam nas pequenas aldeias, e queimadas; assim a Inquisição, tendo como fundamento a moralidade católica, atribuía-se a missão de converter ou eliminar os “infiéis” nos séculos em que os reinos da Península Ibérica eram ainda ameaçados pela dominação islâmica; assim o nazismo germinou em período de crise econômica na Alemanha, e uma grande indústria de propaganda, desde as escolas primárias até o cinema, reconstruiu a imagem do judeu como a origem de todo o mal. Ciganos, homossexuais, negros, deficientes, comunistas seriam também responsáveis pela “degeneração” do povo ariano.

A organização Estado Islâmico faz hoje algo parecido ao estigmatizar o “Ocidente”. Nascida da desestruturação da sociedade síria, a organização pretende restituir uma ordem idealizada que se teria perdido, purificando o mundo através da violência e da conformação a uma moralidade de tal modo deturpada a partir do islã que tem sido combatida pelos próprios muçulmanos. Sem mencionar o período de agressividade que atravessamos no Brasil. A crise econômica e política abriu espaço à manifestação da lógica maniqueísta e do “pensamento selvagem” de Lévi-Strauss, o senso comum, incapaz de separar a apreensão simbólica da interpretação reflexiva ou, em outras palavras, o estigma social da análise política e econômica.

O Gueto de Veneza é um exemplo, entre tantos, na História. Mas visto em aproximação, nos ajuda a esclarecer os mecanismos culturais da segregação de modo geral e, em particular, dos judeus, destinatários preferenciais da carga dos estigmas desde a apropriação do cristianismo por Roma e a subsequente expansão do domínio católico.

Odiados, porém necessários

Quando o Gueto foi criado, em 1516, não fazia ainda vinte anos que Portugal descobrira uma rota marítima para a Índia (1498), circundando o extremo sul da África, o que levou ao fim do monopólio de Veneza como porto distribuidor de mercadorias para o oeste e o norte da Europa. Também havia pouco tempo que Veneza perdera uma fatia significativa de seus negócios em consequência de uma importante derrota militar na batalha de Agnadello com a França e seus aliados, em maio de 1509. Sem falar na ameaça do confronto turco no Mar Adriático, território marítimo veneziano. As galés repletas de mercadorias eram cobiçadas por piratas e turcos cujo poder cresceu no século 14.

Durante a Guerra da Liga de Cambraia que culminou na derrota de Agnadello, cerca de quinhentos judeus fogem de Pádua e Mestre em direção à Veneza, unindo-se aos outros grupos de judeus na cidade: os descendentes dos que vieram da Alemanha a partir de 1300, sobreviventes de numerosos pogroms que enviaram levas de refugiados ao norte da Itália, especialmente para Pádua e Verona, e em número menor a Veneza; parte dos judeus sefaradis, expulsos da Espanha junto com os mouros em 1492, pelos reis Fernando e Isabel; e os asquenazis, chegados a partir de 1090, que ocupavam o arquipélago de Giudecca (uma corruptela de “judaica”).

Num contexto de decadência econômica, crescia o ódio contra a presença dos judeus, que se combinava às campanhas pela reforma moral da cidade, como se as perdas materiais fossem resultado de alterações na ordem espiritual. A ideia de que a corrupção moral levou o poder de Veneza ao declínio convertera-se numa tese oficial. Atos de violência foram liderados pelo religioso Lovato de Pádua, que fizera voto de pobreza. Com inflamada oratória, ele incitou os venezianos a destruir casas de judeus em 1511. Dois anos antes, em 1509, o mesmo em que Veneza perde a batalha de Agnadello, defendera o confisco de todos os bens dos emprestadores de dinheiro, quando os judeus na Europa estavam impedidos de possuir qualquer tipo de propriedade, terras ou bens imóveis, e de exercer outras profissões além da medicina, restando-lhes as atividades de comércio de mercadorias e empréstimo a juros, proibido entre os cristãos. Na verdade, poucos eram, entre judeus, os que trabalhavam como emprestadores de dinheiro, e os negócios financeiros estavam em mãos de venezianos ou estrangeiros cristãos.

Os judeus só não podiam ser expulsos porque eram necessários. Pagavam altas taxas em impostos e aluguéis por moradias que estavam proibidos de comprar e desempenhavam papel importante no comércio, especialmente na negociação de mercadorias de segunda mão em dezenas de lojas licenciadas pelo governo. Decide-se, então, segregá-los em um espaço profilático para garantir a pureza da população mais numerosa, afastada deste modo do convívio com aqueles de moralidade não cristã, capazes de emprestar dinheiro a juros aos cristãos e culpados pela disseminação de doenças como a lepra e a sífilis, que aparece especialmente nas regiões portuárias da Itália a partir de 1494.

Construções de sete andares

Em 1515, surge a ideia de segregar os judeus no Ghetto Nuovo. O verbo gettare em italiano significa despejar, escorrer, mas originalmente “fundir”. Os ghettos eram antigos distritos de fundição de metais e fabricação de canhões, situados em uma ilha ao norte de Veneza, ligada ao centro urbano por duas pontes. Sem pavimentação, eram limitados por construções que formavam uma espécie de muralha com um espaço ao centro. O Ghetto Nuovo, que entra em vigor a 29 de março de 1516, era como um castelo separado por fosso e selado com uma ponte levadiça. Os judeus foram transferidos para lá de todos os cantos da cidade, sobretudo de Giudecca e de uma pequena colônia sefaradi assentada próxima a um cemitério de criminosos executados. Muitos sefaradis, diante da perspectiva de viverem presos no Ghetto, deixam a cidade.

A primeira leva a ocupar as vinte casas já reformadas pelos cristãos foi de judeus ashquenazis. As casas poderiam ser alugadas em contratos de no máximo um ano, e na medida em que os demais prédios, de acomodações precárias, foram sendo adaptados, os aluguéis alcançaram valores altíssimos. O aluguel de casas no Ghetto custava três vezes mais que para os cristãos na cidade.  O aumento da população exigiu o acréscimo de pavimentos até seis ou sete andares, inclinando as edificações de pilares e fundações desprevenidos e em terreno úmido. As pontes levadiças baixavam pela manhã e erguiam-se ao cair da tarde, quando se fechavam as janelas que davam para o exterior e eram removidos os balcões de trabalho.

Em 1541, ocorre a segunda expansão do bairro judeu para o Ghetto Vechio. Neste, havia uma praça, inúmeras pequenas ruas e um terreno baldio. Os venezianos atravessavam grave crise financeira e sentiam claramente o ocaso da República de Veneza, esperado desde a descoberta de uma rota alternativa para o Oriente. As novas levas de judeus vêm, desta vez, do leste europeu, Danúbio e Bálcãs (Romênia e Sérvia contemporâneas), graças à redução dos impostos aduaneiros por volta de 1520. Nem caixeiros, nem burgueses, estes operavam em todos os setores. No século seguinte, em 1633, foi criado o Ghetto Nuovissimo, menor, mas com o mesmo sistema “castelo-e-fosso”. A população de judeus nessa época já era três vezes maior que a da cidade.

No Gueto de Veneza, os judeus podiam ao menos construir sinagogas que abrigavam diversas linhas confessionais, transformando o espaço maldito da segregação em lugar sagrado. A separação física, deste modo, passou a incorporar-se à identidade judaica como elemento distintivo e formador de um habitus, para usar o conceito de Bourdieu. A comunidade de segregados se voltava, cada vez mais, para o seu interior. Os rabinos, em fins do século 16, proibiram danças entre mulheres judias e homens cristãos, sob o temor da conversão, ainda que esta ocorresse muito raramente. A separação apenas alimentava todo tipo de estigma sustentado pela população em geral e pelos grupos dominantes.

Segundo Sennett, “em meados de 1630, os judeus haviam deixado de circular pelas ruas e, à exceção de uns poucos contatos na elite, transformaram-se em enigmas para seus contemporâneos cristãos. O gueto estimulava a imaginação, e cresciam, fora de controle, os rumores sobre o que estavam fazendo e como viviam”. A própria circuncisão era percebida como ritual secreto e diabólico de automutilação, associado à castração e práticas sexuais de sadismo. Acreditava-se que homens judeus, afeminados pela circuncisão, menstruavam, fato registrado por Franco de Piacenza em um catálogo de “doenças judias” de 1630.  

Na cidade cosmopolita, não se aproximava fisicamente dos hebreus, considerados seres impuros e portadores de doenças. Beijos e apertos de mão eram dados apenas entre cristãos, enquanto os acordos com judeus eram selados com uma curvatura. Havia também a associação entre o judaísmo e a perigosa sensualidade oriental, livre dos constrangimentos cristãos.

Em março de 1636, quando um grupo de receptadores levou para o Gueto objetos roubados, supôs-se que todos os hebreus estivessem envolvidos em uma rede criminosa. O Gueto foi trancado pelas autoridades venezianas e todas as casas vasculhadas durante Purim, em busca de seda, roupas e ouro. A partir do roubo, outros delitos foram imputados aos moradores, como o aprisionamento de crianças cristãs e uma “orgia de circuncisões”.

Nos dias que se seguiram, os judeus sofreram um dos piores pogroms registrados, até então, em toda a Europa. A multidão invadiu o Gueto, queimou livros e saqueou objetos sagrados das sinagogas, ateou fogo às casas e à população encurralada entre as muralhas. Como se não bastasse, muitos foram banidos para Ferrara, de onde se recusaram a voltar em 1643, quando, por intermédio de um judeu influente, Leon Modena, foi-lhes permitido o retorno.

Irracionalidade

O isolamento compulsório dos judeus em Veneza durou até 1797, ano da queda da República e ocupação da cidade pelas tropas de Napoleão, que decretou o fim da segregação e a igualdade entre os hebreus e demais cidadãos. Na República de Veneza, não apenas os judeus habitavam edificações aglomeradas. Todos os estrangeiros eram recebidos com desconfiança pelos venezianos. Albaneses, turcos, gregos, alemães, dálmatas e outras minorias étnicas, além dos judeus, moravam em construções concentradas e não tinham cidadania oficial. Os judeus não foram o primeiro grupo que os venezianos segregaram sob pretexto profilático, ainda que tenham sido objeto preferencial de discriminação.

O caso do Gueto de Veneza nos ajuda a compreender que o vilipêndio, a discriminação, as iniciativas oficiais de segregação e os pogroms são manifestações que se desenvolvem como ondas de irracionalidade, e por isso não podem ser explicadas pelas características que guardam as vítimas das agressões. Essas ondas emergem quando os indivíduos são levados, por forças sociais diversas, a reproduzir o discurso e o comportamento conservador de restituição de uma ordem social idealizada e, em algum momento, supostamente perdida.

A sensação de instabilidade e insegurança, gerada por mudanças sociais repentinas, impele os indivíduos a agarrarem-se às linhas demarcatórias da cultura, às regras, preconceitos, rotinas e rituais. Eliminar ou segregar o desconforme e o inesperado, neste contexto, torna-se um imperativo cultural e psicológico, não importa qual seja o objeto a que se atribuem os traços de desvio e dissonância. Um imperativo que pode ser, no entanto, contrariado, desde que se tome consciência dos processos que o constituem.

Especial para ASA

Samira Feldman Marzochi

Professora adjunta do Departamento de Sociologia da UFSCar – Universidade de São Carlos. É colunista do Boletim ASA.

2 Comentários

  • Responder março 29, 2016

    Keyla Belizia Feldman Marzochi

    Leva a um descortinar de dimensão inacreditável (!) o vilipêndio destinado a uma etnia e cultura, a judaica, mesmo para quem tem essa origem, sem deixar de citar outras minorias destituídas, que produziu o aprisionamento nessa mesma cultura e nutriu o preconceito, e
    aponta para o conhecimento da
    história decorrente como o caminho da liberdade e construção.

  • Responder abril 11, 2016

    Ananilia Finizola de Vasconcelos

    Samira!
    Parabéns pelo artigo, que além de ser uma excelente abordagem histórica, é didático e informativo ao mesmo tempo. Aprendi sobre o Gueto de Veneza, pois os acontecimentos históricos que envolvem o sofrimento das minorias, são escondidos da verdade histórica, na maioria das vezes. Muito obrigada!

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