Era uma vez os judeus, Hollywood e a América

Entre várias razões, Era uma vez na América (1984), de Sergio Leone, se destaca entre os filmes hollywoodianos que de algum modo tratam dos judeus: um grande elenco numa narrativa épica que retrata três décadas de Nova York numa reconstituição histórica primorosa, num gênero – o filme de gângster – legitimamente hollywoodiano, ao som da sempre impecável trilha sonora de Ennio Morricone, retratando o início da grande onda de imigração judaica naquele país, sem descuidar dos muitos aspectos culturais dessa comunidade.

Cena do filme "Era uma vez na América"

Cena do filme “Era uma vez na América”

A versão inicial nos cinemas, de 2 horas e 19 minutos, numa montagem sem influência do diretor, resultou em um filme muitas vezes confuso e num fracasso de bilheteria. Mas, quando a versão completa foi finalmente divulgada, de 3 horas e 47 minutos, o que se viu foi uma saga à altura d’O poderoso chefão (1972), de Coppola, e que se tornou sucesso de crítica e público.

O filme narra a história de um grupo de jovens judeus do Lower East Side, em Manhattan, que se iniciam cedo em pequenas contravenções e eventualmente ganham importância no mundo do crime organizado, especialmente a partir da promulgação da Lei Seca. A saga da gangue é contada fora da ordem cronológica, dos anos 1920 até fins dos anos 1960. Resumidamente, David “Noodles” Aaronson (Robert De Niro) e Max Bercovicz (James Woods) se tornam amigos e líderes de uma gangue, que ainda inclui Patrick “Patsy” Goldberg (James Hayden) e Philip “Cockeye” Stein (William Forsythe).

A ascensão da gangue reproduz a transição histórica e ficcional do crime urbano nos Estados Unidos, em que valentões que arrecadavam dinheiro de pequenos comerciantes à custa de ameaças pessoais vão sendo substituídos e mortos por grupos que se organizam em moldes semelhantes aos dos industriais do mundo legal.

Questões humanas

O que começa com pequenos furtos evolui para o comércio ilegal de bebida, prostituição ‒ com Peggy (Amy Rider) como a prostituta judia ‒ e o controle dos sindicatos de trabalhadores (com Treat Williams no papel de James Conway O’Donnel, o sindicalista que se corrompe), sempre com o envolvimento de políticos, juízes e policiais corruptos (com notável participação de Danny Aiello como o chefe de polícia Vincent Aiello), além do conluio com a Máfia italiana, com destaque para Joe Pesci, no papel de Frankie Manoldi.

Ao grupo inicial se juntam “Fat” Moe Gelly (Larry Rapp), que herda de seu pai um restaurante judaico, passando a administrar no subsolo um speakeasy (bar clandestino). Deborah Gelly (Elizabeth McGovern), irmã de “Fat” Moe e por quem Noodles é apaixonado, segue caminho próprio e se torna uma estrela em Hollywood.

Ainda no início, Bugsy (James Russo), o valentão local, mata o pequeno “Patsy” e é morto por Noodles, que vai preso e é solto em 1932, quando seus companheiros já funcionam como uma gangue bem organizada e em ascensão. Pouco depois, Noodles denuncia Max, para que ambos sejam presos por um pequeno delito, com o propósito de evitar que seu amigo e comparsa leve adiante um plano que, em sua opinião, levaria todos à ruína. As coisas dão errado e Noodles foge, acreditando que todos os seus comparsas foram mortos; uma valise de dinheiro que pertencia aos membros da gangue é roubada, e Noodles foge de mãos vazias.

O filme segue as memórias do personagem de De Niro, quando este volta a Nova York para finalmente descobrir que Max o havia enganado antes, tendo sobrevivido e se tornado importante figura política, além de ter transformado Deborah em sua amante e ficado com todo o dinheiro de reserva da gangue.

Sem dúvida, o filme convida à reflexão sobre grandes questões humanas, como o valor da amizade, dos laços de família, o sentido da traição e da lealdade, da cobiça e da ambição, da linha tantas vezes tênue a separar o bem e o mal. Mas, para além disso, a escolha de Leone pelo tema do gângster carrega o filme com outras implicações.

Isto porque o gângster ocupa uma posição única na mitologia americana. As primeiras narrativas genuinamente americanas surgem em fins do século 17, fixando-se numa estrutura que atravessa a literatura daquele país até a entrada do século 20, em histórias sobre figuras cristalizadas, como o herói americano e a mulher redentora, incluindo os indígenas e a própria natureza como vilões. O gângster aparece no início do século passado como figura mitológica inédita, necessária para representar as contradições e paradoxos de uma nação que deixa de ser rural e se torna industrial e urbana, organizada dentro do capitalismo moderno.

Assim, ao representar esse gângster, Leone vai muito além de se referir ao fato histórico, situando a comunidade judaica como parte da própria essência da cultura dos Estados Unidos. E o mito do gângster, em sua capacidade de fundir em si o bem e o mal, a vilania e as qualidades do herói, tornou-se, possivelmente, um dos personagens que melhor personificam a trajetória escolhida pela sociedade americana.

Especial para ASA

 

Fernando Vugman

Doutor em Literaturas da Língua Inglesa, tradutor, autor de A casa sem fim (contos) e Ficção e pesadelos (pós) modernos (teoria e crítica). É colunista do Boletim ASA.

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