Trotski entre nós

Esteban Volkov, neto de Trotski, Foto Jesus Gil

Esteban Volkov, neto de Trotski, Foto Jesus Gil

Sua autobiografia, Minha vida, foi um livro de combate político, e não a exposição da sua subjetividade. E a política de Trotski, seu autor,  pode ser resumida em duas ideias, a da revolução permanente e a da revolução política.

Vamos lá: a revolução permanente ocorreu em 1917, quando os trabalhadores tomaram o poder num país atrasado, a Rússia tsarista. Mas ela parou no meio porque foi derrotada na Alemanha, na Hungria, até mesmo na França. Isolada, a União Soviética (URSS) viu crescer uma classe, melhor dizendo, uma burocracia, o stalinismo. Essa casta só poderia ser derrubada por meio de uma revolução política, na qual os trabalhadores retomassem o poder. Mas a revolução política não ocorreu. Pior ainda, a partir de 1989 todas as soi-disant “democracias populares”,  o leste europeu e a URSS abandonaram o socialismo. E na China, vejam só, o próprio PC restaura o capitalismo!

Ou seja, Trotski, em nossos tempos, deixou de ser visto como um líder político. Para muitos, mesmo os mais honestos, as análises das suas ideias de perderam sentido.
Isso aconteceu, também, a outros revolucionários, como Robespierre, nunca esquecendo que foi ele quem forjou a ideia de igualitarismo na França. Saint-Just, que via na felicidade “uma ideia nova na Europa”, foi esquecido. De Lênin resta tão-somente o mausoléu na Praça Vermelha. Morto de verdade, ele é um falso messias. Lênin, como o rebe,  não ressuscitará.

Num mundo onde o individualismo vem triunfando, não há lugar para essas figuras que, de uma forma ou outra, privilegiavam o coletivo. No bom livro do Leonardo Padura O homem que amava os cachorros, são as características pessoais de Trotski que importam, assim como as de Ramón Mercader. Nada obstante, não estão presentes no romance as aspirações que geraram a vítima e o seu algoz. Chega a ser um livro de suspense.

Na Casa do Saber

Mas, apesar disso, o pensamento de Trotski resiste. Pelo menos, no teatro paulista. Dirigido pelo diretor, ator e jornalista Oswaldo Mendes (acreditem, ele chegou a ser repórter da revista Amiga, nos idos de 1972!), o texto de importante peça de  Peter Weiss retoma a trajetória de Trotski, o intelectual judeu, até o dia de seu assassinato.

Oswaldo Mendes conduziu uma leitura dramática de Trotski no exílio num recente sábado, na Casa do Saber. O convite veio da atriz Maria Fernanda Cândido, uma das fundadoras da instituição, que desejava retomar a programação teatral no espaço. O teatro épico de Weiss se inicia segundos antes da morte de Trotski, quando o espanhol Ramón Mercader, encarregado por Stalin de executá-lo, preparava-se para golpear a cabeça do russo com uma picareta de alpinista, em sua sala no México. Em seguida, a história salta para a primeira vez em que Trotski foi preso e é deportado para a Sibéria. “Ele tinha 18 anos e estava começando a se envolver com grupos revolucionários. O rapaz ainda não conhecia o pensamento de Karl Marx. Isso se deu mais tarde, no seu primeiro casamento”, contou Oswaldo Mendes.

São mais de 50 personagens, e o diretor convidou artistas e amigos de todas as tribos para encamparem a obra de Weiss. Entre os principais papéis, o ator Antonio Fagundes viveu o intelectual, e Maria Fernanda, numa ponta,  interpreta uma estudante que visita Trotski. O crítico teatral do O Estado de São Paulo Jefferson Del Rios também participou da leitura ao lado do diretor regional do Sesc em São Paulo, Danilo Santos de Miranda, e do presidente da Cooperativa Paulista de Teatro, Rudifran Almeida Pompeu.O dramaturgo Lauro César Muniz  foi Plekhanov, colaborador de Lênin, que se aliou aos mencheviques depois da fracassada revolução de 1905. A cantora Cida Moreira viveu a escritora e performer alemã Emmy Hennings. O diretor Eduardo Tolentino fez o papel do pintor Diego Rivera. O ator André Falcão fez Ramon Mercader, o assassino de Trotski. 

Parte dos conflitos estava no difícil consenso sobre como deveria ser a “arte revolucionária”.Trotski defende o nascimento de uma arte nova, que se unisse à causa social para libertar o povo dos velhos padrões – uma arte livre para libertar o mundo. “Não existe liberdade absoluta para a arte”, responde Lênin. “A arte tem que tomar partido. A arte tem que ser um espelho em que a gente possa se olhar. Vamos nos defender do escárnio que se apresenta como gênio criador, vamos nos defender da vulgaridade, do cinismo, do desprezo pelo ser humano.”

A discussão desemboca nas atuais políticas culturais. “Quando conversa sobre a função das expressões artísticas do Estado, o governo tem um comportamento que, via burocracia, tende a atrapalhar a ação de artistas inovadores. O que fazer?”, questiona Mendes, parafraseando Lênin.

 Um pouco de História

Há 78 anos, o intelectual e revolucionário judeu Leon Trotski, Lev Davidovitch Bronstein, expulso do Partido Comunista Soviético e forçado ao exílio, refugiou-se finalmente no México, mas, perseguido pelos assassinos de Josef Stálin, acabou morto na Cidade do México.

Julia Axelrod, filha de Trotski, Foto Daniel Estrin, Forward

Julia Axelrod, filha de Trotski, Foto Daniel Estrin, Forward

Em depoimento ao programa “Witness”, do Serviço Mundial da BBC, o neto do revolucionário, Esteban Volkov, que estava com o avô quando ele morreu, relembrou as emoções sentidas naquele dia.

Para alguns, Leon Trotski foi o verdadeiro herói da Revolução Bolchevique de 1917, que derrubou o tsarismo  e culminou com a criação da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Para os dirigentes dos principais países capitalistas, Trotski foi um dos homens mais perigosos de sua era.

Mas para Volkov, o revolucionário soviético foi uma figura paterna, que deu ao neto momentos raros de estabilidade e alegria em um período de tumulto na vida familiar em meio a um ciclo de perseguições políticas.

“Eu estava constantemente trocando de figuras paternas e maternas”, contou Volkov, hoje com 89 anos. “Com o ‘velho’ – a forma carinhosa como se refere ao avô – eu finalmente encontrei algo estável, ainda que não tenha durado muito.”

Falando da casa na Cidade do México onde viveu por mais de um ano com Trotski e sua segunda esposa, Natália, até o assassinato, Volkov lembrou a empolgação que sentiu ao chegar à América.

Ele tinha apenas 13 anos e havia passado a maior parte de sua infância se mudando de um país para outro com a mãe, Zinalda, filha de Trotski, procurando refúgio contra a perseguição de Stálin, com quem Trotski disputou o poder após a morte de Vladimir Lênin.

“O México foi uma mudança absoluta, era cheio de cores, sol. Tão diferente da Europa. Comecei a ir para a escola sozinho, a pé. Ninguém na escola sabia quem era a minha família.”

 A vida na casa grande e bem protegida por guardas no bairro arborizado de Coayacán era “cheia de diversão”.

Trotski passava o dia escrevendo, sendo entrevistado por jornalistas ou discutindo política com militantes estrangeiros e guarda-costas que viviam com a família.

Durante as refeições, o jovem escutava atentamente as piadas e discussões acaloradas à mesa. Aos outros, no entanto, o avô dava ordens expressas de que não falassem de política na frente do menino. “Sua família inteira havia sido assassinada, ou tinha morrido por causa da política, e eu acho que ele queria que o neto sobrevivesse.”

O pai de Volkov, genro de Trotski, havia sido enviado a um gulag ‒ nome dado aos campos de prisioneiros soviéticos ‒ na década de 1930. A mãe, Zinalda, suicidara-se quando eles viviam no exílio em Paris.

Nascido Lev Davidovitch Bronstein em 1879, Trotski foi eleito presidente do Soviete de Petrogrado antes da Revolução Russa. Tornou-se o chefe do Exército Vermelho em 1918, comandando-o à vitória na guerra civil russa (entre 1918 e 1920). Isolado politicamente por Stálin após a morte de Lênin, foi expulso do Partido Comunista em 1927 e deportado em 1929.

Volkov contou que todas as manhãs o avô se levantava cedo para cuidar de suas plantas e cães antes de se fechar no escritório.

“Eu o ajudava a alimentar os coelhos e galinhas, e a regar o milho.” Os dois conversavam em francês, porque o menino havia perdido a habilidade de falar russo, sua língua materna.

Eles também faziam, regularmente, passeios para fora da cidade, com a família e os amigos reunidos em vários carros. Uma vez no campo, o “velho” passava horas procurando cactos ou conversando com os camponeses mexicanos sobre suas vidas.

Para Volkov, esses foram dias de relativa normalidade e de uma vida familiar que ele não tinha conhecido anteriormente. Mas tudo viria a terminar repentinamente.

Às 4 h da manhã de 24 de maio de 1940, o jovem acordou de sobressalto: atiradores enviados por Stálin haviam invadido a casa.

Volkov se escondeu em um canto do quarto. Com balas ricocheteando pelo cômodo, foi ferido no pé. Os guardas de Trotski conseguiram espantar os atiradores, que fugiram. O ataque fora coordenado pelo artista plástico mexicano Siqueiros, um fanático stalinista.

Trotski e Natália escaparam ilesos. Depois desse incidente, Trotski raramente saía de casa e a segurança ficou ainda mais rigorosa, com mais guardas e mais armas. As viagens para o campo foram abandonadas. “Logo me acostumei a viver naquelas condições”, diz o neto.

Mas a pergunta na cabeça de cada um era: de onde viria o próximo atentado à vida de Trotski?

Os acontecimentos de 20 de agosto de 1940 ficaram gravados na memória de Esteban Volkov. Mercader, o agente stalinista de origem catalã infiltrado na casa de Trotski, feriu fatalmente o líder comunista ao atingir sua cabeça com um utensílio pontiagudo e afiado usado por montanhistas para quebrar gelo.

Após sua morte, o coração e o cérebro de Trotski foram removidos. Concluiu-se que o cérebro do revolucionário tinha peso acima do normal.

Falando lentamente, tomando cuidado para não omitir nenhum detalhe, Volkov contou que naquele dia, ao retornar da aula, notou a porta da casa aberta e um carro da polícia estacionado do lado de fora.

Cheio de temor, correu para dentro. Os guardas estavam consternados. Antes de ser afastado do local, viu o avô de relance, deitado no chão do escritório, sangrando muito. Natália estava ao seu lado.

“Não deixe o menino ver isso”, Trotski teria dito a ela. Ele morreu no dia seguinte, no hospital. O menino ficou tão perturbado que se recusou a ir ao enterro do avô. “A atmosfera na casa ficou muito, muito solitária depois daquilo”, ele disse.

Após a morte de Trotski, Volkov continuou vivendo no México com Natália. Foi para a universidade, formou-se químico, casou-se e criou quatro filhas ‒ algo que trouxe muito conforto para Natália, de luto pela perda do marido assassinado.

Ela morreu em janeiro de 1962. Volkov, hoje viúvo, transformou a antiga casa da família em um museu. Honrar a memória do avô, explicou, é o seu “dever”.

Detalhe: pouco antes de falecer, Natália recusou um convite de Kruschev para visitar a URSS oficialmente.

Outra neta de Trotski, Julia Axelrod, que  há 36 anos atrás imigrou para os Estados Unidos após sofrer duras perseguições na extinta URSS, tem 79 anos e se mudou  para Israel para ficar perto de seu único filho, David, hassid ultranacionalista, com quem mora no assentamento  Beitar Ilit.

David militou nos Estados Unidos na Liga de Defesa Judaica, a organização do rabino extremista Meir Kahane.

Especial para ASA

Henrique Veltman

Carioca, jornalista, 80 anos, torcedor do Ameriquinha. Antropólogo por formação, comunista por deformação. Sionista, ateu graças a Deus. Vários livros publicados (os últimos, Do Beco da Mãe a Santa Teresa; A História dos Judeus no Rio de Janeiro; A História dos Judeus em São Paulo; Histórias de Vovó Rachel – A Criação do Mundo). Novelista de rádio e televisão. Casado, avô de quatro netas e bisavô de quatro bisnetos. Hoje, editor de Opinião do jornal DCI Diário Comércio Indústria & Serviços de São Paulo. É colunista do Boletim ASA. E-mail: hbveltman@gmail.com

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