Ronaldo Lupo, o cantor galã do cinema brasileiro

Ronaldo Lupo; Dercy Gonçalves

Ronaldo Lupo, Dercy Gonçalves e atriz não identificada

Eu era repórter da Radiolândia e fui designado a entrevistar o Ronaldo Lupo. Não foi difícil encontrá-lo, e marcamos um encontro, à noite, na casa de uma compositora que queria mostrar seus trabalhos ao cantor, compositor, ator e produtor, o “cantor galã” – assim ele era conhecido no meio artístico carioca.

A tal compositora, uma senhorinha já entrada em anos, morava num apartamento antigo, na Rua Cândido Mendes, decoração pesada, chippendale. E um piano de cauda numa saleta interessante.

Ao piano, ela – e logo depois, Ronaldo Lupo – cantarolava uma cantiga muito bonita: Belém-blem-blão, é o sino batendo. Belém-blem-blão, é o povo a correr. Belém-Blem-Blão, vai ter ladainha, lá na igrejinha, pra chuva chover…. Até hoje eu não descobri se a música foi gravada, qual era o seu nome, e  quem era a simpática compositora.

Mas foi uma noite agradável e o início de uma amizade que durou algumas décadas, entre eu e Lupo.

O galã

Judeu, chegou a ser galã do cinema nacional em algumas chanchadas por ele interpretadas e produzidas, especialmente durante a década de 1950 e começo dos anos 1960. Foi presidente do Sindicato Nacional da Indústria Cinematográfica.

Mas o seu grande momento no cinema brasileiro aconteceu em 1952, quando escreveu e estrelou o filme Era uma vez um vagabundo, dirigido pelo lendário Lulu de Barros.

Era para ter sido apenas mais uma chanchada, mas graças à história e à interpretação de Ronaldo Lupo, o filme se transformou num cult, sendo até hoje citado como dos mais importantes já realizados pelo cinema nacional.

Lulu de Barros foi, em sua época, o mais profícuo diretor do cinema brasileiro. Ele jamais fez copião, dizia ser desperdício, montava no negativo. Se ao filmar uma cena saía diferente do roteiro, não havia problema, ele mudava a história. Eu fui testemunha dessas loucuras do diretor: fiz uma ponta numa comédia estrelada por Oswaldo Elias e vi quando o comediante errou o texto e arruinou a cena. Lulu não se apertou, mudou o roteiro…

Ele foi o cineasta com a mais longa carreira da história do cinema brasileiro: seu primeiro filme, Perdida, foi feito em 1915; o último, Ele, ela, quem?, em 1977.

E foi Lulu quem dirigiu  Era uma vez um vagabundo. A crítica simplesmente espantou-se com a boa qualidade do filme.

Durante toda a década de 1950, Ronaldo Lupo dedicou-se a fazer filmes, nos quais sempre cantava e interpretava.

 Artista múltiplo

Ronaldo foi um artista múltiplo que atuou como cantor, compositor, ator e produtor. Como compositor, teve mais de vinte composições gravadas. Como cantor, além da gravação de discos, atuou em quase todos os cassinos do Brasil. Foi galã e chansonnier da Companhia de Revistas de Walter Pinto.

Em 1934 Gastão Formenti gravou, de Ronaldo Lupo, o Samba da saudade, e Moacir Bueno Rocha gravou na Colúmbia a valsa-canção Feliz de quem vive na ilusão e o blues Eu sonhei, tudo em parceria com Saint-Clair Sena. Em 1935, teve gravadas na Columbia a marcha Deixa essa gente falá e o samba Meu amor nunca foi da cidade, parceria com Jaime Vogeler e a marcha Cuidado e o samba Por causa da tua fantasia na voz de Castro Barbosa (que depois ficou famoso na PRK-30 com Lauro Borges)…

Como cantor sua estreia no disco aconteceu em 1944, gravando os foxes Suave melodia e Por que mentir?, dele e de Zélia Moreira. Daí para frente, até o fim de sua vida, não parou de compor e de gravar. Em 2003, como comemoração a seus 90 anos de idade, lançou o CD Ronaldo Lupo aos 90 – Para os amigos, no qual relembrou alguns de seus sucessos.

Filho de judeus da Bessarábia, Ronaldo Lupovici Lito morou a maior parte de sua vida numa casa em Saquarema, região dos Lagos, ao lado de sua namorada eterna, Alice. Morreu em agosto de 2005, esquecido dos fãs e da crítica.

Especial para ASA

Henrique Veltman

Carioca, jornalista, 80 anos, torcedor do Ameriquinha. Antropólogo por formação, comunista por deformação. Sionista, ateu graças a Deus. Vários livros publicados (os últimos, Do Beco da Mãe a Santa Teresa; A História dos Judeus no Rio de Janeiro; A História dos Judeus em São Paulo; Histórias de Vovó Rachel – A Criação do Mundo). Novelista de rádio e televisão. Casado, avô de quatro netas e bisavô de quatro bisnetos. Hoje, editor de Opinião do jornal DCI Diário Comércio Indústria & Serviços de São Paulo. É colunista do Boletim ASA. E-mail: hbveltman@gmail.com

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