Rio, o dancing de Camus

Albert Camus (à esq.), Maria da Saudade Cortesão e Murilo Mendes, com o Pão de Açúcar ao fundo- 1949

Albert Camus (à esq.), Maria da Saudade Cortesão e Murilo Mendes, com o Pão de Açúcar ao fundo- 1949

 

No seu diário de viagem, discorrendo sobre uma danceteria popular no Rio de Janeiro, Albert Camus escreve: “Nada diferencia esse dancing de mil outros pelo mundo afora, a não ser a cor da pele. A esse respeito, observo que tenho que vencer um preconceito inverso. Amo os negros a priori e fico tentado a ver neles qualidades que não têm…”

Lembrando a passagem de Camus pelo Rio, Manuel Bandeira testemunha: após um jantar de despedida no restaurante (português) A Cabaça Grande, da Rua do Ouvidor, o poeta aborda o romancista: “o senhor deve estar exausto de tanta conferência”. “Estou doente”, diz Camus. “Eu resisti à guerra, resisti à Resistência, não resisti à América do Sul!”

Mais Bandeira:

“Por aí fomos num papo sem nenhuma formalidade, falamos de nossa doença (…) falamos de muitas outras coisas e ele acabou me dando o seu telefone privado em Paris para que eu o procurasse quando fosse à França. Durante todo o tempo que o ouvi, senti-me à vontade e encantado. Surpreso. Não havia naquele homem nenhum vestígio dessa personagem odiosa que é a celebridade itinerante. Não parecia um homem de letras. Era um homem da rua, um simples homem, dando a outro homem um pouco de sua substância espiritual, simplesmente humana. Senti vontade de ser seu amigo. Quando, um ano depois, estive em Paris, quis procurá-lo. Ele estava ausente. Agora, o desastre… Deixo nestas pobres linhas a minha saudade do homem Camus, tão simples, tão simpático, tão despretensioso na sua glória mundial.”

Camus chegou a Porto Alegre em 9 de agosto de 1949, depois de passar por Buenos Aires e Montevidéu. Foi dali a São Paulo (definida como Orã desmedida, referência à cidade de sua Argélia natal). Depois, Rio de Janeiro, onde se sentiu “entediado com o ar de cartão-postal” da cidade.

Camus era o goleiro da seleção universitária. Conta-se que um bom goleiro. E seu amor ao futebol seguiu-o durante toda a vida. Em 1949, uma das primeiras coisas que Albert Camus fez ao pisar no Brasil foi pedir que o levassem para assistir a uma partida de futebol. Consta que ele viu o meu Ameriquinha contra não-sei-quem. Valeu. Ele viu Maneco, o Saci de Irajá.

Na visita ao Brasil, Albert Camus (Prêmio Nobel de Literatura em 1957), incluiu no roteiro a Festa do Bom Jesus de Iguape. No seu livro O exílio e o reino, no conto “A Pedra que Cresce” (é a lenda da Gruta do Senhor que dá título ao conto) , Camus narra a festa e as comemorações religiosas. Para ele, Iguape é o paraíso da história particular, universal, onde o homem encontra a felicidade. “A multidão que desfila ao longo de uma rua estreita, enchendo-a por completo, é efetivamente o agrupamento mais estranho que se possa encontrar. As idades, as raças, a cor das roupas, as classes, as doenças, tudo fica misturado numa massa oscilante e colorida, estrelada às vezes pelos círios, acima dos quais explodem incansavelmente os fogos, passando também, vez por outra, um avião, insólito neste mundo intemporal.”

Nos dias 5,6 e 7 de agosto de 1949, Camus, acompanhado de Oswald de Andrade e alguns outros amigos, foi a Iguape para conhecer de perto essa romaria do Bom Jesus.

Sua visita ao Vale do Ribeira foi contada com detalhes no Diário de viagem (editado aqui pela Record). Nesse livro ele diz que o Brasil é “um país em que as estações se confundem umas com as outras, onde a vegetação inextricável torna-se disforme, onde os sangues misturam-se a tal ponto que a alma perdeu seus limites”.

Durante sua visita a Iguape, Camus, Oswald e comitiva ficaram alojados num quarto da Santa Casa – não havia pousada ou hotel por lá. Nem sei se agora tem pousada em Iguape…

Curiosidade: em 1949, a luz elétrica de Iguape era desligada às dez da noite. Pra não deixar Camus e Cia. no escuro, o prefeito mandou os empregados da usina elétrica (deveria ser uma pequena termoelétrica, movida a óleo) ficar de plantão a noite inteira.

Iguape não o esqueceu, seu nome foi dado à principal alameda da Fonte do Senhor – nessa fonte a imagem do Bom Jesus foi lavada após ter sido encontrada na Praia do Una por dois índios, em 1647. Sua passagem pela cidade ficou registrada no livro de visitas do Hospital Feliz Lembrança, dia 7 de agosto de 1949, ocasião em que deixou uma mensagem escrita em francês.

Jornalista, talvez filósofo

Junto com Pascal Pia, seu antigo editor, Albert torna-se redator-chefe do jornal Combat, em 1944, escrevendo textos sobre o front de combate na Segunda Guerra Mundial. É o momento maior de seu engajamento político. Aos 31 anos, seu livro O mito de Sísifo o transforma praticamente em um filósofo, embora ele mesmo negue o rótulo.

Combat transforma-se na voz da Resistência Francesa, de esquerda, em oposição ao Le Figaro, conservador, e ao Défense de la France, sensacionalista.

Camus resume os males da guerra em A peste (1947), que foi terminada com muitos conflitos internos. Deixa também o Combat. Vive um período conturbado em sua amizade com Sartre. Este vai apoiar a União Soviética de Stalin. Já Camus sente os excessos do bloco comunista, mas não se alia aos capitalistas. Uma carta em seu livro O homem revoltado, lançado em 1951, menciona os “intelectuais burgueses que querem expiar suas origens”, sem citar nominalmente Jean-Paul Sartre. O francês responde, lamentando a perda da amizade. A obra crítica de Albert Camus, sobre as falhas do engajamento comunista, é o estopim de uma separação. Os conflitos das Coreias e da Argélia, e outras questões geopolíticas da Guerra Fria, aumentam a diferença entre Sartre, que divulgou Camus em Paris, e o franco-argelino vindo de um mundo subdesenvolvido.

Em 1955, Camus entra no jornal de centro-esquerda L’Express. Mantém-se pacifista nas questões da independência da Argélia, sua terra natal, o que lhe custa novas inimizades. Sai da publicação em 1956. Em 1957, ganha o Prêmio Nobel de Literatura por uma obra “notável num sentido idealista”. Escreve os rascunhos de O primeiro homem, livro inspirado em sua vida e com o personagem Jacques Cormery. Em 3 de janeiro de 1960, iria pegar um trem com a mulher, Francine. Por insistência de Michel Gallimard, seu editor, retorna para Paris de carro. Morre na hora, no dia 4, às 13h55. Tinha 46 anos. Gallimard morreu cinco dias depois, no hospital. Bateram em uma árvore no acidente.

“A seus amigos, Camus dizia com frequência que nada era mais escandaloso do que a morte de um criança e nada mais absurdo do que morrer num acidente de automóvel.
Trecho da biografia de Olivier Todd

Especial para ASA

Henrique Veltman

Carioca, jornalista, 80 anos, torcedor do Ameriquinha. Antropólogo por formação, comunista por deformação. Sionista, ateu graças a Deus. Vários livros publicados (os últimos, Do Beco da Mãe a Santa Teresa; A História dos Judeus no Rio de Janeiro; A História dos Judeus em São Paulo; Histórias de Vovó Rachel – A Criação do Mundo). Novelista de rádio e televisão. Casado, avô de quatro netas e bisavô de quatro bisnetos. Hoje, editor de Opinião do jornal DCI Diário Comércio Indústria & Serviços de São Paulo. É colunista do Boletim ASA. E-mail: hbveltman@gmail.com

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