O tribunal de Libânio Guedes

Roquette Pinto

Roquette Pinto

Acho que tudo começou no primeiro ano ginasial do Colégio Hebreu Brasileiro. Nosso professor de História era o Libânio Guedes. Ele promovia uma espécie de tribunal, com promotor, advogado de defesa, presidente da Corte e corpo de jurados, e causas como, por exemplo, a Revolução Francesa. Uma vez, coube-me ser o promotor numa causa difícil, quase consegui a condenação do réu, mas a defesa prevaleceu e eu fui derrotado. Não lembro quem era esse réu.

Mas lembro sempre a definição de Libânio sobre sua matéria: a sucessão de sucessos sucedidos sucessivamente no seio da História.

Libânio era um professor moderno; além do Hebreu, pertencia ao quadro docente do Colégio Pedro 2º. Na Rádio Ministério da Educação ele produzia o programa “A juventude cria”, no sentido de descobrir e aproveitar novos talentos.  Esse programa foi um celeiro de futuros  grandes radialistas, tais como Allan Lima, Paulo Alberto Monteiro de Barros (o Arthur da Távola), Haroldo Costa, Therezinha Amayo, Magalhães Graça e Chico Anísio, entre outros. Havia também concurso para locutores, e um deles emergiu nessa safra,  José de Vasconcelos, um espanto que se transformava também em radioator, imitador, humorista.

Pois então, foi num somatório de interesses despertados pelo professor que descobrimos a Rádio Ministério da Educação e o mundo de oportunidades intelectuais que nos era oferecido.

Gerson, Xexéu e eu embarcamos nesse sonho, naquele pequeno edifício de quatro andares, ao lado da Casa da Moeda, diante do Campo de Santana e da Faculdade Nacional de Direito.

Era 1950. Ali, na PRA-2,  existiam programas de radioteatro para crianças, dirigidos e produzidos por Geni Marcondes. Por exemplo, “O reino da alegria”, onde o elenco interpretava as alegres radiofonizações de Geni, imitando vozes de bichos, plantas, tudo com muita música, pois Geni era professora de música, casada com o maestro Hans-Joachim Koellreutter, que introduziu o dodecafonismo no cenário brasileiro (Guerra Peixe, Claudio Santoro e tantos outros). Do elenco faziam parte Allan Lima,  Jaime Barcellos, Vitória Régia, Álvaro Costa, Nanci do Nascimento, Ieda Oliveira, Orlando Prado. Quem dirigia a turma era o Sadi Cabral.

Allan Lima, em depoimento ao  jornal da Sociedade dos Amigos Ouvintes da Rádio MEC, conta o seguinte episódio:

“No reino da alegria” ia ao ar ao vivo das 17h30 às 18 horas. Às 16h30 nós chegávamos para ensaiar, não só o texto, como também as músicas. E as crianças (cantavam num pequeno coral) eram ótimas. Uma vez,  dona Geni disse  para o Orlando Prado: ‘Imagine que você é um peixe debaixo  d’água e fale com voz de peixe.’ Então ele falou com uma voz de peixe, uma voz borbulhante. Ninguém sabe como ele conseguiu fazer aquilo, sem estar com um copo d’água! Mas ele ficou olhando, olhando,  pensou e conseguiu.”

Muitos anos depois, Orlando Prado foi o grande diretor da “Escolinha do Caçula”, meu programa diário na Rádio Globo.

O “Reino da alegria’ da Geni Marcondes apresentou uma série chamada “O Rei Pimpão”, escrita pelo também ator Magalhães Graça, onde havia a Rainha Finoca, interpretada por Fernanda Montenegro.

Nessa época, a Fernanda Montenegro ainda era Arlete Pinheiro Esteves da Silva. Foi mais ou menos nesse ano de 1951 que, ao ser contratada pela TV Tupi, Canal 6, que iniciava as suas transmissões, o diretor Olavo de Barros achou por bem mudar o nome da jovem atriz. “Arlete não dá”, sentenciou. Mas não sei até hoje quem sugeriu o nome Fernanda Montenegro.

Geni também dirigiu o  “Sítio do pica-pau amarelo”  que tinha Dylmo Elias como Pedrinho. Coube a  Silvia Regina radiofonizar toda a obra infantil de Monteiro Lobato. Eu me apaixonei pela Silvia Regina (pseudônimo de Maria de Lourdes Alves)  e, assim, fui incorporado à equipe dela.

Uma rádio como a BBC

Nós poderíamos ter tido uma organização de rádio e de televisão como a BBC, aqui no Brasil. Aliás, durante alguns anos, foi exatamente isto que aconteceu no Rio de Janeiro, com a Rádio Sociedade, criação de Edgar Roquette Pinto, Henrique Morize e um grupo excepcional de acadêmicos e professores, apoiados numa rede de associados, que pagavam mensalmente uma contribuição que garantia a existência da emissora, tal qual acontecia, e continua acontecendo, com a BBC britânica. Sem publicidade paga.

Desde 1922, quando realizou a sua primeira transmissão radiofônica, a BBC consolidou-se como uma organização pioneira no rádio e televisão. O Serviço Mundial da BBC transmite em 45 idiomas, e conta com a maior audiência radiofônica do mundo ‒ cerca de 140 milhões de ouvintes.

Mas por aqui, as coisas não eram muito diferentes do que acontecia em Londres.

A Rádio Sociedade foi a primeira estação de rádio do Brasil, fundada em 20 de abril de  1923, com o nome de Rádio Sociedade do Rio de Janeiro.  Em 1936, Roquette Pinto e seus sócios doaram a Rádio Sociedade ao Ministério da Educação. O documento de doação apresentava, entre outros itens, a condição de que a emissora se dedicasse a uma programação voltada para a melhoria de nosso povo, sob pena de a família do doador retomar o  canal da emissora. Por isso, até hoje, a Rádio MEC entra e sai do ar sempre com o lema do grande sábio brasileiro: “Pela cultura dos que vivem em nossa pátria; pelo progresso do Brasil.” Quando doou a emissora ao Ministério da Educação, Roquette Pinto disse em seu discurso: “Sinto-me como um pai que conduz sua filha ao altar para entregá-la ao noivo.” Ela passou a chamar-se então Rádio Ministério da Educação. Seu prefixo era PRA-2 e sua frequência, 800 khz. Um  programa que de imediato alcançou enorme sucesso foi “Ginástica pelo rádio”.  Ficou no ar 51 anos. O professor Oswaldo Diniz Magalhães adotou padrões éticos, cívicos e de saúde em suas aulas.  Havia, talvez ainda exista,  uma estátua do professor na Praça Saens Peña, onde ele vivia. Era uma graça vê-lo ao vivo, nos estúdios, e um desafio, acompanhá-lo pelo rádio, comandando os ouvintes, que recebiam pelo correio um livreto com as posições que deviam seguir nos exercícios.

O cientista  Miécio Honkis  escrevia dois programas  para o radioteatro: “Novos horizontes” e “No tribunal da história”. O primeiro ia ao ar às sextas à noite. Paulo Santos, a voz padrão da emissora, anunciava com voz solene: No ar, “Novos horizontes”.

E entrava uma melodia muito bonita e vibrante, “Sinfonia do Novo Mundo”, de Antonin Dvorak. A música baixava e Santos lia o texto de abertura: “Se há uma classe de homens que merece a nossa admiração e o nosso respeito, é esta, sem dúvida, a dos cientistas. Aqueles que no seu labor perene e constante  fazem surgir da penumbra dos laboratórios a luz de um futuro melhor. A luz que abre novos horizontes ao porvir da humanidade.”

O programa dramatizava a vida de cientistas e suas descobertas. Fundador do Planetário da Gávea, na gestão do então jovem secretário de Ciência e Tecnologia do Estado da Guanabara, Arnaldo Niskier,  Miécio estava sempre a par das novidades no mundo da Astronomia e da Astrofísica. Foi quando “Novos horizontes” deu uma guinada para a ciência do espaço, na onda da corrida espacial dos anos 1950 e 60.

Aí nesses anos,  escrevi para a Embaixada americana uma série de programas, “Pedro Paulo, um repórter no mundo da ciência”, com a assistência do professor  Miécio. Esse programa, gravado, era repetido por uma enorme rede de emissoras de rádio do interior. Foi a primeira vez, que eu saiba, que os radioisótopos foram explicados aos ouvintes de rádio, numa trama policial…

Eu estava a serviço do imperialismo ianque, e não sabia…

Especial para ASA

Henrique Veltman

Carioca, jornalista, 80 anos, torcedor do Ameriquinha. Antropólogo por formação, comunista por deformação. Sionista, ateu graças a Deus. Vários livros publicados (os últimos, Do Beco da Mãe a Santa Teresa; A História dos Judeus no Rio de Janeiro; A História dos Judeus em São Paulo; Histórias de Vovó Rachel – A Criação do Mundo). Novelista de rádio e televisão. Casado, avô de quatro netas e bisavô de quatro bisnetos. Hoje, editor de Opinião do jornal DCI Diário Comércio Indústria & Serviços de São Paulo. É colunista do Boletim ASA. E-mail: hbveltman@gmail.com

Seja o primeiro a comentar