O dia em que eu perdi o santo Tomás de Aquino & Maimônides

Túmulo de Maimônides em Tiberíades

Túmulo de Maimônides em Tiberíades

Meu escritório ficava na Rua Epitácio Pessoa, colado ao Hotel Hilton, na Avenida Ipiranga. Volta e meia eu ia tomar um café no Floresta, no térreo do Copan, e ali na calçada, um sebo improvisado vendia livros, alguns deles muito interessantes.

Certo dia, uma edição completa de Tomás de Aquino estava à venda, em bom estado de conservação. Verifiquei o preço, estava correto. Informei ao vendedor que eu ia tomar um cafezinho, depois subiria ao meu escritório, pegaria o talão de cheques e fecharíamos negócio. Ele topou.

Foi o tempo de tomar o café, atravessar a avenida, subir ao segundo andar do prédio, voltar com o cheque ao portador.

Só que, nesse ir-e-voltar, alguém mais se interessou pela Suma Teológica, e eu perdi o santo. Lamentável, não dá pra confiar em vendedor de livros do asfalto…

Maimônides, fé e razão

Seguindo os passos de Moisés Maimônides, Tomás cita cinco motivos que o nosso filósofo judeu mostra para afirmar que a razão não é absoluta:

1- O conhecimento do mistério é difícil de ser alcançado, devido à sua profundeza e abstração;

2- Na juventude, o intelecto humano não está totalmente desenvolvido;

3- A demonstração do mistério só adquire exemplos e conhecimento de maneira paulatina (pouco a pouco);

4- Certas pessoas não têm talento para os estudos;

5- A luta pela existência e o cuidado com os afazeres humanos absorvem a maior energia do ser humano.

 Para Tomás, a finalidade da fé é acreditar; a finalidade da razão é conhecer.  Para alcançar a Verdade, deve-se ter fé; mas, ao mesmo tempo, é necessária uma mente que questione e esteja interessada em conhecer. “As mentes preguiçosas que pensam que uma fé ingênua basta não vão a lugar algum. Somente uma razão potencializada pela fé, ou “uma fé avivada pela razão pode levar o homem a assumir sua dignidade de filho de Deus, aproximando-se de seu bondoso Criador”, dizem, de uma forma ou outra, Tomás e o Rambam.

Lembra o professor Jean Lauand, da USP e  titular de Educação e Ciências da Religião da Metodista de São Paulo (Umesp)  , “há um número infinito de imbecis. Esta verdade, que é confirmada pela autoridade de Deus, é citada mais de vinte vezes por Tomás de Aquino, que a lê em Eclesiastes 1,15: “stultorum infinitus est numerus”, sentença atribuída ao rei Salomão, proferida em um momento de veemente desabafo e sob os efeitos do vinho (2, 3). Os néscios – diz o salmo (118, 12) ‒ “me rodeiam como vespas”.

Pois então, os tolos não só são infinitos, mas também apresentam-se sob diversas espécies: umas mais brandas; outras, mais graves; há tolices inocentes; outras são grave pecado. Ao longo de toda a obra de Tomás de Aquino, encontramos toda uma tipologia de tolos: asyneti, cataplex, credulus, fatuus, grossus, hebes, idiota, imbecillis, inanis, incrassatus, inexpertus, insensatus, insipiens, nescius, rusticus, stolidus, stultus, stupidus, tardus, turpis, vacuus e vecors.

Especial para ASA

Henrique Veltman

Carioca, jornalista, 80 anos, torcedor do Ameriquinha. Antropólogo por formação, comunista por deformação. Sionista, ateu graças a Deus. Vários livros publicados (os últimos, Do Beco da Mãe a Santa Teresa; A História dos Judeus no Rio de Janeiro; A História dos Judeus em São Paulo; Histórias de Vovó Rachel – A Criação do Mundo). Novelista de rádio e televisão. Casado, avô de quatro netas e bisavô de quatro bisnetos. Hoje, editor de Opinião do jornal DCI Diário Comércio Indústria & Serviços de São Paulo. É colunista do Boletim ASA. E-mail: hbveltman@gmail.com

Seja o primeiro a comentar