O astrolábio judeu e as grandes descobertas

Astrolábio no Museu Britânico

Astrolábio no Museu Britânico

Há sete anos, a BBC anunciou: “Uma ferramenta astronômica rara que ajudou cientistas medievais a determinar as horas vai permanecer no Reino Unido, depois que o British Museum conseguiu dinheiro para comprá-la.   O artefato de latão, chamado astrolábio, tinha sido vendido em um leilão este ano, e o Museu não conseguiu dar a maior oferta. Mas fundos do National Heritage Memorial, do Art Fund e dos Amigos do British Museum ajudaram o Museu a comprar a peça por US$ 700 mil.”  

 “O astrolábio é uma aquisição muito importante para nossa coleção medieval como um objeto que pode explicar a sofisticação da ciência na Era Medieval e a transferência de conhecimento entre os muçulmanos, judeus e comunidades cristãs”, disse o diretor substituto do Museu, Andrew Burnett.   O artefato do século 14, que tem o formato de um quadrante, ou um quarto de círculo, foi desenvolvido para ser portátil e tem um raio de quase oito centímetros. O instrumento foi usado para calcular a altura do Sol. Com essa informação, um cientista podia determinar a hora, a data e outras informações.   A águia gravada neste astrolábio indica que ele deveria ser usado com o Sol, e não com estrelas, pois acreditava-se que a águia era o único animal capaz de olhar diretamente para o Sol, disse Silke Ackermann, curador de instrumentos científicos europeus e islâmicos no Museu.   A invenção do astrolábio é creditada aos cientistas judeus e árabes no século 9º, que aprenderam seu conceito estudando ciência grega. Os aparelhos foram depois adotados pelos europeus no século 10° e usados até o 15.   Apenas oito astrolábios desse tipo são conhecidos da Idade Média, e o instrumento do British Museum foi o único criado para uso na Inglaterra.

No livro A História do Mundo em 100 objetos, o diretor do Museu Britânico, Neil MacGregor, salienta que esse astrolábio “nos revela muito sobre como estudiosos judeus e islâmicos revitalizaram a ciência e a astronomia ao levar adiante o legado recebido da Grécia e da Roma clássicas. O astrolábio nos conta de uma grande síntese intelectual e de um tempo em que as três religiões – cristianismo, judaísmo e islamismo – coexistiam pacificamente. Não houve uma síntese religiosa, mas as três crenças existiam juntas em um atrito produtivo e juntas fizeram da Espanha medieval a fonte de poder intelectual da Europa”.

Os dinamizadores do Ultramar

Nos textos dos historiadores brasileiros Elias Lipiner e Salomão Serebrenik, o papel dos judeus entre os mais importantes dinamizadores do ultramar é destacado. Contam eles que, fossem quais fossem os móveis do alargamento marítimo de Portugal, o certo é que ele não lograria produzir-se sem o longo período de descobertas e aperfeiçoamentos científicos que precedeu o grande ciclo das conquistas, e no qual tiveram papel de sumo relevo os sábios da época.

Desde o século 12,  vinham os judeus da Península Ibérica se distinguindo  nos domínios da matemática, astronomia e geografia, ciências  básicas para a arte náutica, especialmente para a navegação oceânica. Alguns nomes merecem destaque: Abraham Bar Chia , autor de Forma da Terra, Cálculo do Movimento dos Astros e Enciclopédia;  Abraham Ibn Ezra , autor de Utensílios Éneos, Tratado do Astrolábio, Justificação das Tábuas de Kvarismi e Tábuas Astronômicas; João de Luna, autor de Epítomes de Astrologia e Tratado do Astrolábio; Jacob Ben Machir, autor de Tratado do Astrolábio e inventor de um instrumento de observação, o assim chamado Quadrante de Israel; Isaque Ibn Said , que elaborou um resumo  das obras sobre astronomia dos gregos e árabes; rabi Levi Ben Gerson, o Gersonides, autor do Tratado sobre a Teoria e Prática do Cálculo, Dos Números Harmônicos, Tábuas Astronômicas sobre o Sol e a Lua e Tratado sobre a Balestilha, além de ter construído dois importantes instrumentos: a câmara escura e o telescópio, cuja invenção, geralmente, é atribuída a terceiros; Isaque Zaddik, autor das Tábuas Astronômicas, Tratado sobre Instrumentos Astronômicos e Instruções para o Astrolábio de Jacob ben Machir.

Todo este movimento científico foi  fundamental para os projetos dos governantes portugueses de disputar a posição de grande potência naval. O infante Dom Henrique, o Navegador, ao fundar, em 1412, a primeira academia de navegação, a  Escola de Sagres, designou seu diretor um dos mais famosos cartógrafos do século , o judeu Yehuda Crescas, que vivia, então,  nas Ilhas Baleares, entre a Península e o Marrocos.

Yehuda Crescas,  também conhecido como mestre Jácome de Maiorca e apelidado de  “El judío de las brújulas” graças  à sua notável experiência na fabricação de bússolas, teve por  missão ensinar aos pilotos portugueses os fundamentos da navegação e a produção e manejo de cartas e instrumentos náuticos.

Outros cientistas judeus já então famosos prestaram sua colaboração à Escola de Sagres, entre eles José Vizinho, mestre Rodrigo e, sobretudo, Abraham Zacuto, o autor do Almanaque Perpétuo de todos os Movimentos Celestes, uma figura de grande influência em todas as decisões que diziam respeito aos interesses do Estado, basicamente, às expedições oceânicas,  entre elas a bem sucedida viagem de Vasco da Gama , com a descoberta do caminho marítimo para a Índia. Viagem que  foi por Zacuto inteiramente planejada.

Acho que não é preciso dizer mais nada para estabelecer o notável papel dos sábios e cientistas judeus do século 15 que tornaram possíveis as viagens transoceânicas e as descobertas realizadas pela frota portuguesa.

A contribuição judaica ao descobrimento de novas rotas e de novas terras para a Coroa portuguesa não se limitou ao campo científico de feição preparatória, senão também se traduziu na participação direta nas temerárias viagens, em que os judeus se revelaram de vital utilidade, graças ao conhecimento que tinham das línguas e costumes de vários países e povos.

E foi assim que os judeus tiveram papel  importante na expedição que resultou no achamento do Brasil. Na frota comandada por Pedro Álvares  Cabral, viajaram como conselheiros  e especialistas pelo menos dois judeus: Mestre João, médico particular do rei e astrônomo equipado com os instrumentos de Abraham Zacuto, e que tinha como incumbência realizar pesquisas astronômicas e geográficas; e Gaspar de Lemos, também conhecido como Gaspar da Gama e Gaspar das Índias, intérprete e comandante do navio que levava os mantimentos, e justamente considerado pelos historiadores como corresponsável pelo descobrimento do Brasil.  Leia-se, para melhor conhecimento desta figura notável, o livro de Elias Lipiner Gaspar da Gama , um converso na frota de Cabral.

Fica a dica para quem viajar a Londres: visitem o Museu Britânico e conheçam de perto o astrolábio judeu. Vale a pena.

Especial para ASA

Henrique Veltman

Carioca, jornalista, 80 anos, torcedor do Ameriquinha. Antropólogo por formação, comunista por deformação. Sionista, ateu graças a Deus. Vários livros publicados (os últimos, Do Beco da Mãe a Santa Teresa; A História dos Judeus no Rio de Janeiro; A História dos Judeus em São Paulo; Histórias de Vovó Rachel – A Criação do Mundo). Novelista de rádio e televisão. Casado, avô de quatro netas e bisavô de quatro bisnetos. Hoje, editor de Opinião do jornal DCI Diário Comércio Indústria & Serviços de São Paulo. É colunista do Boletim ASA. E-mail: hbveltman@gmail.com

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