Meu amigo Woody Allen, venha filmar no Brasil

220-large“Não sei muito sobre o Brasil além do que aprendemos na escola. Precisaria ir e aprender mais sobre o país, ver como o Rio de Janeiro funciona. Mas não pensaria duas vezes. O Brasil é um país de que você cresce ouvindo falar de forma exótica e romântica. Só não faço ideia de como começar um filme em um lugar sem conhecê-lo. Se vou a Londres, sei onde estão os restaurantes, os parques, as ruas. Preciso ir ao Rio encontrar a sensibilidade da cidade.”

Carta de Henrique a Woody

“Vejo que você continua falando de filmar no Brasil, precisa apenas de uma boa ideia. Vamos lá: é uma história real, aconteceu com um judeu, vamos chamá-lo de Moisés, era uma espécie de caixeiro-viajante. Nos anos 1940, as ligações entre as cidades de São Paulo e Rio de Janeiro eram precárias, levava-se, de carro, pelo menos 12 horas. De trem noturno, saindo às 21 horas de São Paulo, chegava-se ao Rio por volta de meio- dia.

Moisés ia para o Rio de Janeiro parando de cidadezinha em cidadezinha, vendendo seu comércio (bijuterias, sedas, produtos de beleza etc.). Ao cabo de dez ou doze dias, chegava à então capital do Brasil. Lá, descansava alguns dias, enchia suas malas com outras mercadorias e fazia a viagem de volta para São Paulo, parando novamente nas cidadezinhas.

Ele tinha mulher e filhos em São Paulo. Tinha mulher e filhos no Rio de Janeiro. Mas, claro, uma família não sabia da existência da outra.

Em São Paulo, ele era Moisés. No Rio de Janeiro, Morris.

Mas o progresso chegou, e em 1951 inaugurava-se a moderna rodovia ligando as duas cidades em pouco mais de sete horas.  Amigos e familiares do Rio e de São Paulo passaram a encontrar-se, a reatar seus laços. E um belo dia, chegou aos ouvidos paulistas a notícia de que Moisés tinha, no Rio, outra família…

A questão chegou ao rabinato em São Paulo. Foram feitas diligências e, finalmente, o rabino chamou as esposas e parentes para a decisão: “Ele é bom pai? É bom marido? O que vocês querem desse honesto judeu?”

A partir daí, tudo como dantes no quartel de Abrantes. Ele manteve as duas famílias, que passaram a se corresponder, até o fim dos tempos.

É uma boa ideia para o filme? Locações no Rio de Janeiro, em São Paulo e até em várias pequenas e encantadoras cidadezinhas antigas do Brasil.

Estou às ordens, mesmo que seja para reatarmos nossas conversas, iniciadas lá atrás, em Nova York.”

Nota: Woody Allen ainda não  respondeu a essa minha sugestão.

Especial para ASA

 

Henrique Veltman

Carioca, jornalista, 80 anos, torcedor do Ameriquinha. Antropólogo por formação, comunista por deformação. Sionista, ateu graças a Deus. Vários livros publicados (os últimos, Do Beco da Mãe a Santa Teresa; A História dos Judeus no Rio de Janeiro; A História dos Judeus em São Paulo; Histórias de Vovó Rachel – A Criação do Mundo). Novelista de rádio e televisão. Casado, avô de quatro netas e bisavô de quatro bisnetos. Hoje, editor de Opinião do jornal DCI Diário Comércio Indústria & Serviços de São Paulo. É colunista do Boletim ASA. E-mail: hbveltman@gmail.com

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