Eu e a Bossa

Tom Jobim, 1965

Tom Jobim, 1965

Se você acha que amar é tolice, bobagem e ilusão é Bossa Nova. Se amar foi sua ruína é samba-canção. Se a ingrata deu pro Assum Preto, pro Pintassilgo e pro Ditão é música sertaneja.

Se ela passa num doce balanço a caminho do mar é Bossa Nova.

Essa, ninguém tasca,  eu vi e ouvi primeiro.

Estou falando do termo Bossa Nova. Como lembra o Zeca Levinson, testemunha ocular e participante da história: na época ele era o presidente do GHUB (Grupo Universitário Hebraico Brasileiro). Toda quarta-feira havia uma atração na sede da Rua Fernando Osório, onde hoje fica a Biblioteca Bialik. Um belo dia (ou noite…), conta o Zeca, o jornalista Moysés Fuks trouxe uma novidade, um grupo que estaria fazendo uma música diferente com uma batida moderna, um grupo bossa nova. “Topamos de imediato”, diz o Zeca, “e a Lia (viúva do jornalista Eliezer Strauch), que era a nossa secretária, escreveu no quadro-negro para divulgar ainda mais o evento: “na próxima quarta,  apresentação de música diferente, uma bossa nova”.

Dois filhos, sete netos, Lia, vive em Israel. De lá, por e-mail, ela contou ao O Globo: “Era costume divulgar no quadro-negro todos os acontecimentos importantes do Grupo. Escrevíamos as chamadas dos estênceis (usados para rodar os programas com a agenda das atividades) enviados aos associados. Eu era a responsável pela secretaria e só eu poderia ter escrito que na “quarta-feira, dia tal, noite de ou da bossa nova etc.” Mas não poderia ter tirado da minha cabeça os dizeres se não tivessem aparecido em outro lugar. Eu era secretária, mas não tinha a independência de criar títulos para as atividades do Grupo. Copiei os dizeres do programa onde aparecia “noite da bossa nova” ou “noite de bossa nova”.”

Se alguém procurar nos arquivos do jornal Última Hora, encontrará no tabloide uma nota que dizia mais ou menos o seguinte: “ontem, no Grupo Universitário, houve uma apresentação de bossa nova…”.

Luizinho Eça, Bill Horn, Bebeto, Silvinha Telles, Chico Fim-de-Noite, Menescal, esse era o time. Nara Leão também estava lá e foi uma dificuldade botá-la pra cantar, de vergonha. Os famosos joelhos de Nara não paravam de tremer.

Da diretoria do Grupo Universitário participavam, entre outros, o Samuel Kohn e sua irmã, Aninha, o Jacob Tenenbaum, o Isaac Kahn.

Foi nos idos de 1958. Ou seja, não foi na Hebraica, no Copa e outros lugares, como vem sendo publicado pela imprensa carioca. Até mesmo o Roberto Menescal confundiu as coisas, trocou as bolas. Numa entrevista, ele disse que, “a princípio,  nós não sabíamos que estávamos fazendo algo novo. Nós achávamos que estávamos fazendo música para uma juventude que não tinha sua música própria. O termo bossa nova surgiu num show que fizemos na Hebraica, a convite de Silvinha Telles, que era a única profissional do grupo”. Negativo, Menescal. Foi no GUHB. O Ruy Castro,  na Folha de S.Paulo, endossou a minha afirmativa: “Foi no Grupo Universitário Hebraico, uma modesta associação de estudantes no Flamengo”.

Coisa do Moysés Fuks & Cia.

No calendário oficial

Por iniciativa do ator e então vereador Stepan Nercessian, foi instituído no calendário oficial da cidade do Rio de Janeiro o Dia Tom Jobim em homenagem à Bossa Nova. Que se comemora no dia 25 de janeiro de cada ano, data do aniversário do compositor e maestro.

Muito justo. Afinal, “Tom desafinou a  bossa nova, cantou o amor, o silêncio do namoro, a expressão dos olhares. Cantou Heloísas, Luízas, Lígias, Ângelas e Teresas. Tom Jobim musicou de maneira real e imaginária nossa terra, nossos bichos, nossas matas, suas sombras, ruídos, seus vôos e movimentos. São sons suaves, leves, às vezes brincalhões, mas acima de tudo, sons brasileiros. Tom sonha e canta o positivo, o lado mágico de uma terra feita do que é bom, isso sem nunca deixar de mostrar nossos contrastes”, disse Stepan na justificativa de seu projeto.

Chico Buarque disse: o maior orgulho que podemos ter é nosso maestro soberano, o Antônio Brasileiro.

Tom Jobim é uma referência maior no movimento que ganhou o nome de Bossa Nova e que levou ao mundo um pouco da alma carioca e brasileira e de nosso jeito de ser.

Muito importante, portanto, registrar e proclamar que a marca Bossa Nova surgiu numa agremiação estudantil judaica, ali, no Flamengo!

Especial para ASA

Henrique Veltman

Carioca, jornalista, 80 anos, torcedor do Ameriquinha. Antropólogo por formação, comunista por deformação. Sionista, ateu graças a Deus. Vários livros publicados (os últimos, Do Beco da Mãe a Santa Teresa; A História dos Judeus no Rio de Janeiro; A História dos Judeus em São Paulo; Histórias de Vovó Rachel – A Criação do Mundo). Novelista de rádio e televisão. Casado, avô de quatro netas e bisavô de quatro bisnetos. Hoje, editor de Opinião do jornal DCI Diário Comércio Indústria & Serviços de São Paulo. É colunista do Boletim ASA. E-mail: hbveltman@gmail.com

1 Comentário

  • Responder julho 1, 2015

    Cecilia Fonseca da Silva

    Excelente e esclarecedor artigo! Parabéns! Um abraço da Cecilia, colega de Boletim.

Deixe uma repost