Coisas do velho jornalismo

O explorador Percy Fawcett, Amazônia, 1911

O explorador Percy Fawcett, Amazônia, 1911

Nos idos de 1950, depois do Natal e antes da Semana Santa, sumia o noticiário político. E o noticiário econômico, então, era ralo e sem maiores repercussões na circulação dos jornais. O futebol, é claro, estava em férias. Sobravam o Carnaval e o noticiário policial. E sobrava, claro, muita imaginação dos chefes de reportagem. Monstros marinhos eram vistos na Baía de Guanabara, gaviões assassinos saltavam do telhado do Teatro Municipal para atacar pequenos animais, e quem sabe?, até humanos…

Mais sofisticados, os editores da Última Hora e dos Diários Associados, especialmente da revista O Cruzeiro, enviavam repórteres e fotógrafos à Amazônia, em busca do coronel Fawcett.

O Eldorado

Em 29 de maio de 1925, numa clareira próxima ao Rio Xingu, o explorador inglês Percy Fawcett escreveu em carta à sua mulher: “Faz muito frio à noite e as manhãs são frescas; mas os insetos e o calor aparecem por volta do meio-dia e daí até seis da tarde é só sofrimento no acampamento (…) Você não deve temer nosso fracasso (…).”

O coronel, que serviu de inspiração para o personagem do arqueólogo Indiana Jones, liderava uma expedição em busca do Eldorado em plena Amazônia, no território dos índios Kalapalos.

Essa carta foi a última notícia que se teve da expedição Fawcett. Depois disso o arqueólogo, seu filho Jack e o amigo Raleigh Rimell jamais foram vistos. Desapareceram misteriosamente, sem que o obstinado explorador tivesse encontrado o Eldorado, a maravilhosa cidade cheia de riquezas, oculta na selva amazônica, que procurou por toda a vida e que parecia só existir na sua mente algo delirante.

Mas, na esteira do seu desaparecimento, mais de uma dúzia de expedições foram organizadas na tentativa de localizá-lo – e cerca de cem pessoas morreram nessas perigosas aventuras –, sem acréscimos significativos ao pouco que se conhecia sobre o que teria acontecido a ele.

Ótima oportunidade para os inventivos chefes de reportagem, que encontravam novas pistas todos os anos, sempre na entressafra do noticiário. Teria Fawcett finalmente encontrado a cidade perdida e se tornado o grande chefe de uma tribo desconhecida?

E assim, durante anos, os jornais, pelo menos os do Rio de Janeiro, dedicaram muito espaço à procura do inglês, de seus companheiros, e dos tesouros amazônicos.

Mas como a história se prolongava, a revista O Cruzeiro, com grandes recursos, quase monopolizava essa cobertura. Os chefes de reportagem dos jornais, digamos assim, adversários,  lançaram, então, outro mistério na selva, o do tenente Fernando.

Nu, na floresta

No domingo dia 29 de julho de 1945, o 1º tenente engenheiro do Exército Fernando Gomes de Oliveira, comandante do grupamento mais avançado da 2ª Companhia Rodoviária Independente, que trabalhava na construção de uma estrada, desapareceu sem deixar rastros.

Que fim levou o tenente Fernando?

Valia tudo. Sobretudo a lenda de que ele se tornara pajé de um grupo indígena, e até fotos foram publicadas, de um homem branco, nu, no meio de uma aldeia num ponto qualquer da floresta, entre Rondônia e o Acre. Seria ele?

Foi aí que eu entrei na história. Com o fotógrafo Waldir dos Santos Braga, o Estrela, fui em busca de qualquer coisa que valesse para uma série de reportagens. É claro que não encontramos nada, e numa ideia do Estrela, entrei no rio Madeira, praticamente pelado e, de costas, fui fotografado e a legenda do flagrante, devidamente fora de foco, lançava a questão: Seria o tenente Fernando?

A UH estampou a foto na reportagem de página inteira, que publicamos naquele verão de 1957…

Já que estávamos por ali, visitamos algumas cidades, sobretudo do Acre. Não sei se foi em Rio Branco ou Floriano, mas o fato é que, numa delas, visitamos um hospital modelo, totalmente equipado, mas que não funcionava. As freiras que cuidavam do elefante branco informaram, “não há médicos e enfermeiros disponíveis na região”. A obra e os equipamentos tinham sido doados pela Fundação Adenauer.

Isso foi há mais de 50 anos. E hoje, na tela da TV, na Globonews, vejo as imagens de hospitais em Belém onde equipamentos apodrecem há anos sem serem instalados – até porque, em Belém, e provavelmente em todo o Norte brasileiro, não há médicos e enfermeiros disponíveis. Apesar de toda essa onda demagógica de dona Dilma no programa Mais Médicos…

Plus ça change, plus c’est la même chose é o epigrama do jornalista Jean-Baptiste Alphonse Karr: Quanto mais as coisas mudam, mais elas permanecem as mesmas…

Boletim nº 154 – maio/junho de 2015 – Ano 27

Especial para ASA

Henrique Veltman

Carioca, jornalista, 80 anos, torcedor do Ameriquinha. Antropólogo por formação, comunista por deformação. Sionista, ateu graças a Deus. Vários livros publicados (os últimos, Do Beco da Mãe a Santa Teresa; A História dos Judeus no Rio de Janeiro; A História dos Judeus em São Paulo; Histórias de Vovó Rachel – A Criação do Mundo). Novelista de rádio e televisão. Casado, avô de quatro netas e bisavô de quatro bisnetos. Hoje, editor de Opinião do jornal DCI Diário Comércio Indústria & Serviços de São Paulo. É colunista do Boletim ASA. E-mail: hbveltman@gmail.com

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