A bicicleta amarela

Ciclovia na Paulista, Divulgação

Ciclovia na Paulista, Divulgação

Logo após o meu enfarte em 1974, o doutor Victor Schubsky, desde então meu cardiologista, recomendou uma série de exercícios físicos, inclusive e sobretudo, ciclismo. Sim, é isso mesmo, ele sugeriu que eu pedalasse um ciclomotor. Foi o que fiz, comprei uma Velosolex, uma bicicleta motorizada. Na verdade, eu havia conhecido essa bike em 1972, em Paris, quando o meu sobrinho, Pascal, rodava meia Europa com sua Velo, pra susto e desassossego de Fela, sua mãe.

Assim, comprei uma Velosolex no Mappin. Era amarelinha, uma graça. Eu morava na Rua Albuquerque Lins, na fronteira da Barra Funda com Higienópolis, e o meu escritório ficava na Praça Roosevelt, não era longe. Eu ia pedalando boa parte do percurso e só ligava o motorzinho nas poucas e íngremes subidas, ali no final da Rua Amaral Gurgel. Uma solução magistral.

Naquele tempo, entre os vários clientes da agência, o mais interessante era o Unibanco. Era dirigido por uma gente moderna, de cabeça aberta, culta. Às segundas-feiras, bem cedo, havia uma reunião no salão de eventos do banco, na Praça do Patriarca, à qual concorriam todos os prestadores de serviços do banco, Rede Globo, Folha e Estadão, agências de publicidade e nós. Era servido um senhor café da manhã, seguido de uma reunião ampla em que todos participavam e conheciam as novidades da instituição. Ah, sim, a reunião era dirigida, sempre, pelo embaixador Walter Moreira Salles, o presidente do Unibanco.

Pois um dia, ainda no café, o embaixador puxou conversa comigo: “Sabe, Veltman, quando eu vinha vindo do aeroporto para cá, cruzei com um sósia seu, montado numa ridícula bicicletinha amarela. Claro que não era o senhor, mas…”.

Vendi a Velosolex. Aliás, troquei por uma bicicleta comum, verde. O negócio foi arranjado pelo Igor, nessa altura, trabalhando na sucursal de O Globo. A bicicleta ainda sobreviveu um tempo na chacrinha de Parnaíba. Já, da Velosolex, ficaram apenas saudades.

Não me perdoo até hoje.

A ciclovia da Paulista

Fiquei com uma vontade enorme de pegar uma bike do Itaú e passear pela ciclovia da Avenida Paulista, inaugurada no último domingo de junho com festa dos ciclistas, protesto contra o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad e tinta azul jogada na pista exclusiva de bicicletas. Claro, preciso de companhia para essa aventura. Não sei se este corpinho de 79 vai dar pra aguentar o tranco. Vamos ver, o futuro aos deuses pertence, quem sabe Hermes?

Naquele domingo, por volta das 10 horas, a Paulista foi interditada ao trânsito nos dois sentidos e só liberada às 17h15, segundo a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET).

O prefeito disse, durante a cerimônia de inauguração, que a ciclovia é um “símbolo de qualidade de vida”. Ele justificou o fechamento da Avenida Paulista para o evento dizendo que o espaço “é público”. Ao ser questionado sobre o fechamento na Paulista todos os domingos, o secretário municipal de Transportes, Jilmar Tatto, um dos irmãos Metralha, respondeu que isso ainda está em estudo. “A intenção da ciclovia é abrir a Avenida Paulista para todo mundo, não só para carros, mas também para pedestres e veículos não motorizados”, falou o secretário. Eu não gosto dele, mas no caso, estou de pleno acordo.

Naquele domingo e nos dias seguintes, o prefeito enfrentou protestos de pessoas contrárias ao PT, que gritavam frases contra ele e a presidente Dilma Rousseff. Simpatizantes do prefeito o defenderam gritando contra o grupo.

Houve cenas de vandalismo. Um trecho da pista, na altura do prédio da Fiesp, foi emporcalhado com tinta azul jogada na ciclovia. Não houve informações sobre o responsável por esse ato.

Com 2,7 km de extensão e construída no canteiro central, a pista exclusiva está entre a Praça Oswaldo Cruz e a Avenida Angélica. A ciclovia tem quatro metros de largura e fica a uma altura de 18 cm em relação às faixas de rolamento ao seu lado.

Devido ao alargamento do canteiro central, as faixas das duas pistas, tanto no sentido Consolação quanto no sentido Brigadeiro, precisaram ser reajustadas e diminuíram a largura de 3 metros para 2,8 metros. Já a faixa de ônibus, à direita da pista, perdeu 20 centímetros, passando de 3,5 metros para 3,3 metros.

A obra, que durou cerca de seis meses, custou R$ 12,2 milhões aos cofres públicos, no trecho entre as avenidas Paulista e Bernardino de Campos, incluindo a instalação de dutos para a passagem de fibra ótica sob a pista. Diferentemente da maioria das ciclovias, que são pintadas com tinta vermelha, a da Paulista é feita com concreto pigmentado com coloração. Muita gente reclamou dos gastos.

A construção de ciclovias é uma das principais marcas da gestão do prefeito Fernando Haddad (PT), que pretende entregar 400 km de vias exclusivas para ciclistas até o fim deste ano. Atualmente, a cidade possui 298,6 km de ciclovias, sendo 238,3 km somente da gestão do prefeito petista. Com as inaugurações do domingo, São Paulo tem 307,4 km de ciclovias.

São Paulo se junta, assim, a algumas das melhores cidades do mundo. O avanço das bicicletas é um marco de civilização. Haddad não tem sido um bom prefeito, de uma forma geral, mas acertou na pinta, nesse caso, pra desespero dos fanáticos pelo automóvel. 

A bike não é nossa

Celso Ming escreveu em sua coluna do sábado dia 11 de julho: “A novidade (inauguração da ciclovia) foi comemorada até pelo Museu de Arte de São Paulo, o Masp, que verificou aumento do movimento de bilheteria (…) Ibope registra que em 2013 havia 174.100 usuários diários de bicicletas em São Paulo. No ano passado, esse número saltou para 261 mil, aumento de 50% (…) Há no Brasil 235 montadoras que operam no mercado, mas apenas quatro abocanham 27,9% do volume da produção. A importação corresponde a 7,5% das vendas internas. (…) cerca de 80% das peças usadas na montagem são importadas, principalmente da China (…) Itaú e Bradesco vêm tentando usar a nova propensão ao exercício ao ar livre nas grandes cidades para oferecer bikes à população e, de quebra, usar o serviço como recurso de marketing (…) O Brasil é o quinto maior mercado de bicicletas.

Especial para ASA

Henrique Veltman

Carioca, jornalista, 80 anos, torcedor do Ameriquinha. Antropólogo por formação, comunista por deformação. Sionista, ateu graças a Deus. Vários livros publicados (os últimos, Do Beco da Mãe a Santa Teresa; A História dos Judeus no Rio de Janeiro; A História dos Judeus em São Paulo; Histórias de Vovó Rachel – A Criação do Mundo). Novelista de rádio e televisão. Casado, avô de quatro netas e bisavô de quatro bisnetos. Hoje, editor de Opinião do jornal DCI Diário Comércio Indústria & Serviços de São Paulo. É colunista do Boletim ASA. E-mail: hbveltman@gmail.com

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