Imagens e palavras

Cristo entre os doutores

Albert Dürer, 1506, Cristo entre os doutores

“Uma imagem vale mais do que mil palavras.” Embora batido, o velho ditado não perdeu a validade. Andanças pelos museus da Europa remetem a um tempo que, apesar de considerado renascimento das luzes, reafirma um estereótipo da imagem – já então construída – do judeu vil, que hostiliza a palavra e a pessoa do Cristo, condenado, por isso, a ser mantido sob constante pressão, de modo a ser convertido, enfim, à verdadeira fé.

Em Madrid, no Thyssen-Bornemisza, os visitantes se deparam com o quadro do alemão Albrecht Dürer, pintado em 1506 (mesmo ano em que ocorreu uma terrível matança de judeus em Lisboa), no qual um Jesus jovem e angelical – a representação do novo ‒ posa entre os doutores de seu tempo, que o veem com incompreensão, dúvida e malícia.

Mesmo que a imagem possa não ter sido exibida ao grande público, fica claro que reflete o que se pensava na época, vivida pela Igreja Católica em sua plenitude, sobre aqueles que não aceitaram a nova palavra (ou a “idolatria” a ela associada) e se mantiveram fiéis apenas ao Velho Testamento.  Por quantos e quantos séculos perpetuou-se essa visão quase satânica dos judeus, que, por conta disso, foram condenados a ser “um povo errante, um povo sem nação”, ao qual só cabia servir (e servir, pelo seu sofrimento, de testemunho para a verdade do cristianismo), pagar pesadas taxas e, nas palavras do professor Itzack Baer, da Universidade de Jerusalém, existir “como se todos os dias tornassem a comprar o direito de viver”?

Lata de lixo

The Carrying of the Cross detail of Christ and St Veronica-xx-Hieronymus Bosch

Hieronymus Bosch, Cristo carregando a cruz, déc.10 do século 16

À mesma época, o pintor holandês Hieronymus Bosch lançava a sua versão da via crucis de Cristo, este imolado por personalidades quase repulsivas, atualmente exposta no Museu de Belas Artes de Gand, na Bélgica.  Antes dele, Giotto, e depois, Caravaggio reproduziram imagens semelhantes, de judeus sempre em atitudes soturnas, como se estivessem traindo alguém.

Inescapável destino: o mesmo retrato pintado pelos artistas ligados, de uma ou de outra forma, à Igreja Católica foi incorporado pelos protestantes.  Martin Lutero, quando se deu conta de que os judeus não  iriam aderir à sua igreja reformada, lançou violentos ataques a aqueles, recorrendo inclusive ao que existia de pior no folclore alemão, assentado ainda nos massacres de judeus no século 14, quando estes foram acusados de terem envenenado os poços da Europa com uma mistura de partes animais e humanas, provocando a Peste Negra (1348-1349).  Saqueados, expulsos, totalmente vulneráveis, muitos foram queimados vivos ao tempo daquelas perseguições.

A imagem recalcada do judeu astuto, maligno e cúmplice de deicídio atravessou o tempo, percorreu países, oceanos e continentes, combinou-se à ignorância.  Apareceu no Nordeste brasileiro, onde o número de judeus é mínimo.  Nos anos 1950, aqui no Rio, domésticas trazidas do interior de Portugal se assombravam com crianças que se confessavam judias.

Após o Holocausto, a resistência e o refortalecimento do judaísmo e a construção e evolução do Estado de Israel até o que é hoje, essa imagem arquetípica modificou-se.  De algum modo, tornou-se mais próxima da enunciada por De Gaulle, em uma conferência de imprensa há cinco décadas, em 28 de novembro de 1967, pouco depois, portanto, da Guerra dos Seis Dias: “em todos os tempos, um povo de elite, seguro de si mesmo e dominador”.  Menos incômoda, certamente, ao nosso olhar contemporâneo?

Por outro lado, a Igreja Católica também avançou.  Na recente virada do século, o papa João Paulo 2° pediu perdão pelas injustiças e malfeitos cometidos contra “os irmãos da Antiga Aliança”.  E, atualmente, a instituição declara que “qualquer um pode, sem Jesus, se salvar pelas boas obras”.

Há mais: no número que saiu em 3 de junho deste ano, a revista espanhola El Jueves entrevista a monja beneditina e ativista política catalã Teresa Forcades, que afirma não só que “Jesus, descontente com a sociedade de seu tempo, era de extrema esquerda”, como ainda que “imagina D-us como sendo uma mulher”.  Está certo: temos aqui um quadro excepcional, pinçado pelo satírico e irreverente semanário, mas não deixa de nos fazer pensar que, ao contrário do que pode parecer, o mundo hoje é o das ideias abertas, das muitas opções que relegam os estereótipos, imagens e pensamentos únicos à lata de lixo da história.

Especial para ASA

Renato Mayer

É diretor da ASA e colaborador do Boletim ASA.

Seja o primeiro a comentar