Três mundos dialéticos pelo mesmo preço

ms-242

A fotografia acima é registro fiel de um manuscrito hebraico medieval, tecnicamente conhecido como Viena Österreichische Nationalbibliothek (Biblioteca Nacional Austríaca), MS. Hebr. 242, fol. 190r.

Trata-se de um fólio decorado que exibe um Hino à Unidade. Preservado em Viena, o manuscrito faz parte do grupo denominado incunabula, posto que é anterior a 1501; data de 1415 e pertence à cultura ashquenazi. Foi realizado na Europa Central, do que dão testemunho os caracteres hebraicos do tipo “quadrado”.

O detalhe do hino acima ilustrado corresponde à abertura de certas orações que são recitadas durante a noite de Iom Kipur quando a Noite da Expiação cai num domingo. A decoração do Manuscrito Hebreu 242 não inclui cenas narrativas, mas sim pares consideravelmente sugestivos. O fólio 190r envolve, por sua vez, a decoração da primeira palavra hebraica que se pronuncia no Hino à Unidade,.   

Neste contexto convém lembrar que o termo hebraico ASHIRA não provém de OSHER (felicidade), mas de LASHIR (cantar), sendo por conseguinte a contração de ANI (eu) e ASHIR (cantarei). A ênfase sobre este termo é adequada a um manuscrito onde se compilam hinos para serem cantados. ASHIRA, além disso, é um termo que figura na Mikrá, embora não em relação a algum tempo futuro, mas com o sentido de SHIRA (cântico), por escolha e decisão.

No Manuscrito Hebreu 242, o fólio 190r apresenta uma composição reminiscente de um cartaz com fundo azul. Ali a palavra ASHIRA é acompanhada por três pares de seres vivos. Os membros de cada um desses pares estão dispostos de modo heráldico, confrontados. A natureza dos pares e a sua atitude, que se poderia chamar dialética, sugerem várias relações concernentes tanto à realidade como à imaginação.

No detalhe embaixo, à direita, figuram os cães. Eles estão, aparentemente, uivando como coiotes em noite de lua cheia. À esquerda, veem-se dois seres híbridos, um com cabeça de cão e outro com cara humana. Ambos, porém, dotados de corpos que não são nem caninos nem humanos. São seres tipicamente góticos. Os dois são bípedes e têm rabo ondulante. Ambos poderiam estar conversando acerca do limite entre o humano e o animalesco. Finalmente, em um nível superior, aparecem dois dragões ao mesmo tempo ferozes e cooperativos. Com seus focinhos eles sustentam a coroa que desde tempos imemoriais a tradição judaica outorga ao Texto Sagrado. É conhecida em hebraico como Keter Torá. Assim como os híbridos mencionados, também estes dragões são bípedes. Ambos possuem orelhas pontiagudas ou chifres e são providos de caudas florais não isentas de certa complexidade. Além disso, um deles tem asas.

Realidade e imaginação

Se considerarmos as formulações teóricas de Tzvetan Todorov, é possível deduzir que o par de cães representa este mundo ‒ o mundo do Real‒, enquanto o par de dragões pertence a outro mundo, que não é nosso, um mundo de fantasia, regido segundo suas próprias leis. Todorov inscreve tal mundo na categoria do Maravilhoso. Os híbridos pertencem ao mundo das metamorfoses incertas e por isso ficariam inscritos dentro da categoria do Fantástico.

Ao considerar o domínio do Imaginário, Todorov estabelece três categorias literárias: o Maravilhoso, o Estranho e o Fantástico. As duas últimas envolvem a irrupção de um acontecimento inacreditável dentro da realidade cotidiana. A diferença entre o Estranho e o Fantástico é que no Estranho a irregularidade ocorrida acaba sendo explicada por meio de uma justificativa lógica, enquanto que o Fantástico, devido à falta dessa justificativa, deixa o leitor em dúvida. Assim sendo, Alice no país das maravilhas (Carroll) se inscreve no domínio do Estranho, enquanto A metamorfose (Kafka) corresponde ao domínio do Fantástico. Dado que a razão de ser dos híbridos que figuram no fólio 190r do Manuscrito Hebreu 242 nem de longe é óbvia ou justificável, parece razoável considerá-los pertencentes à categoria do Fantástico.

Mas o domínio do Fantástico, por sua vez, é entendido por quem escreve como O FAMILIAR QUE SE TORNA INQUIETANTE.  De fato, a categoria literária a que Todorov dá o nome de Fantástico é perfeitamente compatível com uma categoria estética que, no campo das artes visuais, se conhece como o Grotesco.

Em torno de uma mesma palavra hebraica coexistem no fólio 190r três pares de seres dialéticos. Eles fazem alusão a diferentes domínios situados entre os campos da realidade e da imaginação. Assim, um dos pares representa o domínio do Real, enquanto os outros dois correspondem ao do Imaginário, este compreendendo tanto o Maravilhoso quanto o Fantástico-Grotesco.

Por fim, não se deve descartar a possibilidade de que os pares heráldicos representados no início do Hino à Unidade sejam uma alusão à natureza dialética que caracteriza o judaísmo desde tempos imemoriais. Não em vão a milenar história do povo hebreu e sua experiência bíblico-talmúdica tem por matriz tanto o diálogo quanto o debate, a harmonia e a discordância, os pontos em comum e os pontos em desacordo. Tal dialética compreende assuntos reais e hipotéticos. Os pares de bichos aqui representados podem então ser símbolos da diversidade de posturas hebreias diante do Texto Sagrado e tudo o que concerne a ideias e inquietações próprias da cultura hebreia. De um modo maroto e tangencial, o artista medieval parece estar expressando a sua própria opinião sobre a suposta unidade israelita, e o resultado é tão surpreendente quanto as abundantes, não taxativas e paradoxais conclusões que emergem da rica dialética bíblica, os infatigáveis questionamentos rabínicos e as não menos insólitas controvérsias talmúdicas.

Especial para ASA

Passepartout

Artista plástico, arquiteto e historiador da Arte. Pesquisador sul-americano especializado em comunicação visual. Conferencista independente com 12 prêmios internacionais em Arte e Educação. É colunista do Boletim ASA.

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