Terras e promessas

 

Rio de Janeiro, Espaço Alcazar, Mariano Akerman: Expressões em Copacabana, junho-julho de 2016. Colagem digital com detalhes de 17 obras de Akerman

Rio de Janeiro, Espaço Alcazar, Mariano Akerman: Expressões em Copacabana,
junho-julho de 2016. Colagem digital com detalhes de 17 obras de Akerman

Abraão contempla as estrelas é um trabalho gráfico realizado por Ephraim Moses Lilien para ilustrar a edição alemã de Os livros da Bíblia (1908). Trata-se de uma cena crucial para a identidade do povo hebreu. Nessa imagem, Lilien introduz o primeiro patriarca de Israel, que, obedecendo às palavras do Senhor, olha o céu e conta as estrelas, já que elas representam a sua futura descendência (Gênesis 15:5).

Ephraim Moses Lilien, Abraão contempla as estrelas, 1908

Ephraim Moses Lilien, Abraão contempla as estrelas, 1908

Tradicionalmente, é a partir desse momento que se estabelece o Pacto (Brit) entre Deus e Abraão, de tal modo que Abraão será a origem de um povo que reconhece Yahvé como seu Deus, que lhe entregará a Terra Prometida para a posse perpétua do povo hebreu.

Durante mais de três milênios o povo hebreu reconhece, ama e zela pelo Criador do Universo como sua única divindade. A Terra Prometida se materializou no antigo território de Israel. Após vinte séculos de Diáspora, ela reencontrou sua expressão no moderno Estado hebreu. Contudo, a Terra do Leite e do Mel conheceu poucos e breves períodos de paz. Na atualidade, e há já 68 anos, o Estado hebreu é uma nação independente, mas as nações do mundo tendem sistematicamente a negar o reconhecimento de Jerusalém como sua capital, una e indivisível. Jerusalém parece condenada a ser nada mais que um sonho.

E sonhada é também uma ilustração desenvolvida em 1989 por Chanan Mazal para Ezequiel 11:16-17, texto que profetiza o  retorno do povo judeu da Diáspora, com a subsequente outorga da Terra de Israel.

Chanan Mazal, ilustração para Ezequiel 11, 1989

        Chanan Mazal, ilustração para Ezequiel 11, 1989

A imagem de Mazal não reflete a realidade jerosolimitana atual, limitando-se a evocar uma antiga profecia bíblica. Seguindo estratégias de representação medievais e apresentando um mundo sem pessoas, Mazal incorpora o texto de Ezequiel em uma configuração conceitual e concêntrica. No centro, localiza o Templo de Jerusalém, com seus utensílios de ouro, e cerca tudo com uma muralha, simbólica da Cidade de David. Mazal evoca assim os tempos messiânicos, caracterizados pela reconstrução da Cidade Santa e do Templo. A Muralha de Jerusalém, por outro lado, é cercada por um anel formado a partir das fachadas de dezesseis sinagogas da Diáspora.

Na imagem de Mazal, a Diáspora é simbolizada por um conjunto de fachadas, estilisticamente variadas.  Porém, a essência de toda sinagoga não reside em seu estilo arquitetônico, e sim na sua preservação do Texto Sagrado, que, por sua vez, garante a continuidade da fé hebraica. Em termos históricos, com a perda da independência territorial e com o Segundo Templo de Jerusalém reduzido a escombros, a única pátria que o povo judeu teve foi a Torá. Significativamente, com ou sem terra, a Diáspora preserva aquela “pátria portátil” há mais de dois mil anos.

Oriundo dos Estados Unidos, Mazal emigrou para Israel e já residia em Jerusalém quando realizou sua ilustração para a profecia de Ezequiel em 1989. Trata-se de um trabalho original, que responde a um ponto de vista tradicional e sionista. O autor representa uma Jerusalém ideal, parte de uma visão que ainda não se materializou. Ainda que válida em termos de crença, a profecia, quando ainda não é cumprida, fica automaticamente relegada ao plano do Imaginário.

Em Cidade do Senhor, é diferente a abordagem de Jerusalém por Mariano Akerman, que saiu da Argentina para a Terra Santa, e em cuja capital residiu durante alguns anos. Em 1992, Akerman pinta uma cidade que é percebida através de um arco com a harpa de David. Mas a cidade é contemplada de uma certa distância. Contudo, Akerman inclui deliberadamente a Mesquita de Omar, o Muro Ocidental e a Igreja do Santo Sepulcro, todos numa mesma cidade. Alude, com isso, à necessidade de um real diálogo interconfessional.

Mariano Akerman, Cidade do Senhor, 1992

Mariano Akerman, Cidade do Senhor, 1992

E enquanto Mazal responde a uma antiga aspiração do judaísmo, Akerman expressa um desejo atual de coexistência pacífica entre os crentes das três religiões monoteístas. Mazal se centra na profecia e representa um mundo em plena dissecação arquitetônica. É como se Mazal adotasse o ponto de vista de um Sumo Sacerdote de Israel diante do Santo dos Santos. Claro que isso não se aplica ao caso de Akerman, para quem Jerusalém é um lugar a ser ainda descoberto, um lugar essencialmente diverso.

Mariano Akerman, Credo, 2012

  Mariano Akerman, Credo, 2012

Credo é uma colagem realizada por Mariano Akerman em 2012. O trabalho se compõe de dois setores, ambos com fundo de cor terra. O setor direito apresenta doze quadrados marrons, cada um com a letra hebraica iud (י), representada em cor e textura próprias. O setor esquerdo da colagem mostra uma planta com sete folhas e cuja raiz tende a se inserir entre duas áreas retangulares policromadas. Em Credo, o motivo da direita evoca o peitoral do Sumo Sacerdote de Israel, caracterizado outrora por suas doze pedras distintivas e representando as doze tribos israelitas. A menorá ou candelabro hebreu de sete braços é, por outro lado, a referência da planta que aparece no lado esquerdo da colagem. Contudo, na imagem de Akerman, as pedras se transformaram em sementes multicoloridas, e a menorá, numa espécie de planta dançante. Em Credo, os materiais inertes dos tempos bíblicos se transformaram na matéria orgânica do dia de hoje. Os doze iudim simbolizam assim o povo de Israel (iehudim), enquanto que a planta dançante, por ter sua origem na menorá, pode ser associada a noções tais como criação e/ou criatividade.

O título da obra ‒ Credo ‒ funciona como um manifesto pessoal, no qual sementes e planta são as protagonistas de um trabalho que celebra as noções respectivamente de povo judeu e criatividade. Significativo neste caso é que a Terra Prometida seja evocada através dos fundos de cor marrom. Perguntamos: poderiam as sementes e a planta chegar a desenvolver-se plenamente se não existisse uma Terra Prometida como pano de fundo?

Segundo Akerman, Credo foi realizado ao pé do Himalaia, mas adquiriu um novo significado no Brasil:

“Numa certa oportunidade visitei o Museu Judaico do Rio. É um lugar onde se aprende sobre as tradições hebraicas e a história das comunidades judaico-brasileiras. O Museu possui uma pequena coleção de Judaica. Os textos sagrados e objetos litúrgicos próprios do judaísmo são ali acompanhados pela vestimenta de uma noiva sefaradi, pelos cofres que recebiam as doações para o plantio de árvores na Terra Santa e pelos inquietantes “pijamas” que aqueles que faziam trabalhos forçados nos campos de concentração eram obrigados a vestir. A mostra culminava com alguns quadros, na maioria sombrios, todos relacionados com o Extermínio. Notei também a biblioteca do Museu. Entre os seus volumes me chamou a atenção um dedicado aos empilhadíssimos túmulos do cemitério de Praga. Senti tristeza. E pensei que seria bom o Museu possuir algum trabalho que celebrasse a Vida. Por isso decidi que, quando houvesse oportunidade, Credo seria oferecido ao Museu Judaico. Lá a minha obra bem que  poderia detonar múltiplos pensamentos ligados às noções de plantar, crescer, dialogar, compartilhar, ser. Enfim, o Museu contaria com um trabalho capaz de propiciar uma dialética da Esperança.”

Credo foi recentemente doado por seu autor ao Museu Judaico do Rio de Janeiro e faz parte da coleção permanente dessa instituição carioca.

Especial para ASA

 

Passepartout

Artista plástico, arquiteto e historiador da Arte. Pesquisador sul-americano especializado em comunicação visual. Conferencista independente com 12 prêmios internacionais em Arte e Educação. É colunista do Boletim ASA.

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