Origens da Guerra *

Tropas nazistas invadem a Polônia, 1º de setembro de 1939

Tropas nazistas invadem a Polônia, 1º de setembro de 1939

Falar sobre as origens da 2ª Guerra Mundial é tratar de um dos raros terrenos da História sobre os quais existe uma grande margem de consenso. Mesmo que alguns busquem origens longínquas e outros se centrem em variáveis conjunturais, sejam elas econômicas ou políticas, não se tem dúvida de que foi a Alemanha Nazista que motivou a guerra.

Hoje também não se tem dúvida de que um conjunto de ações e inações das potências europeias que acompanharam o rearmamento da Alemanha, o rompimento progressivo do Tratado de Versalhes e as concessões territoriais feitas a Hitler foram os estágios de uma estrada que desemboca na invasão da Polônia e na declaração de guerra em 1939. Isto é, talvez, o que há de mais seguro e banal neste campo.

Porém, ainda que importantes, como são importantes para os estudos de conflitos armados, estas certezas permitem não mais que uma aproximação parcial sobre as origens da 2ª Guerra Mundial. E por uma razão simples: esse foi um conflito de tipo particular.

Concepção de mundo

Certamente há coisas nela que são comuns a outros conflitos: pressões e contra-pressões políticas, “razões de Estado”, manobras e posicionamentos de exércitos, conquista de territórios e apropriação de riquezas, mobilização de recursos, mortes e tantos outros, sempre comuns a todas as guerras. Porém, a 2ª Guerra envolveu coisas que a singularizam: o genocídio como política conscientemente elaborada e sistematicamente perseguida, a destruição consciente e direcionada de riquezas e de homens em uma escala ainda não vista (e não somente em função dos “efeitos colaterais das batalhas”!) e uma condução diferenciada da guerra em suas diversas frentes. No leste, o que pautou operações e o comportamento dos soldados foi um espírito de cruzada que não se viu em nenhum outro teatro de operações: quer na Escandinávia ou nos Bálcãs, quer no ocidente europeu ou no norte da África. E foi assim porque os nazistas assim o quiseram.

Portanto, falar das origens não é somente falar das variáveis conjunturais ou estruturais que explicam a conflagração, mas também, e necessariamente, tratar das razões que fizeram da 2ª Guerra Mundial um conflito diferente de outros.

E este problema obriga a projetar luz sobre os nazistas. São eles que dão a esta guerra suas cores específicas. Pensar na origem desta especificidade implica buscar nos projetos, nos programas e nos fundamentos ideológicos aquilo que ajuda a entender não só por que a máquina de guerra foi colocada em movimento pelos nazistas, mas também por que ela funcionou de forma especial, em particular no Leste europeu.

O racismo, a expansão e a guerra, para o nazismo, se tornaram valores e se constituíram em fundamentos para a modelagem do Estado e da sociedade na Alemanha.

Estes elementos se combinam a partir de uma concepção de mundo em que a guerra é, antes, uma necessidade e não uma possibilidade. Isto deriva de uma forma particular como os nazistas entendiam a História.  Falar de História é falar de uma eterna luta entre raças, motor da evolução humana. Esta percepção se funda na ideia de que a luta é um dado da natureza e que tem a função, propriamente natural, de ser um princípio de seleção dos aptos e de descarte dos inaptos. A luta, além de incontornável, é também positiva por ser o lugar de depuração e de aprendizagem de qualidades necessárias ao estágio evolutivo ulterior.

Para Hitler é este caráter pedagógico da luta que faz da guerra um instrumento decisivo para um povo que precisa se manter sempre preparado porque está em luta permanente por sua própria sobrevivência:

“Enquanto a terra mover-se em torno do sol, (…) haverá luta, tanto entre os homens quanto entre os povos. (…) De fato a luta não é assim tão lamentável, pois se os homens vivessem no Jardim do Éden, eles desapareceriam. Aquilo no que a Humanidade se transformou, ela o fez por intermédio da luta.” (Transcrito em Hillgruber, Andréas (org.) Staatsmänner und Diplomaten bei Hitler: Vertrauliche Aufzeichnungen 1939-1941. Munique: DTV, 1969. Pp. 218-219.)

Assim, o fenômeno da guerra é pensado pelos nazistas não somente em termos de contingência, mas também em termos de valor. A positividade e a necessidade da guerra repousam principalmente em seu caráter pedagógico e formativo para um povo que deve se manter sempre mobilizado.

Estado-para-a-guerra

Com estes fundamentos, o 3º Reich se constitui em um Estado-para-a-guerra, ao materializar estas concepções abstratas em políticas públicas e em programas de política interna e externa.

Internamente, a luta foi travada desde o início do regime: a depuração política se fez acompanhar de um conjunto de políticas excludentes fundadas no pensamento racista que viram sua aplicação especialmente radical e consistente em relação aos judeus, mas que também atingiram outros grupos de “indesejáveis”. Estas ações e programas tiveram como fundamento uma utopia política racista centrada no programa de construção de uma sociedade homogênea.

Também desde muito cedo, na política externa, o 3º Reich buscou o acerto de contas com o status quo europeu derivado do Tratado de Versalhes e projetou seus interesses, de forma decisiva, para o leste. E isto era programático: para Hitler, o Estado Alemão sob o nazismo deveria interromper

“a eterna migração germânica para o sul e para o ocidente europeus e direcionar o olhar para as terras no leste. Nós, finalmente, colocaremos um fim à política colonial e ao comércio do período anterior à Guerra [de 1914-18] para ir em direção à política territorial do futuro.” (Hitler, A. Mein Kampf; Munique: Zentralverlag der NSDAP, 1943, p. 742)

Em termos ideológicos, o leste representava também o confronto com o bolchevismo, visto pelo nazismo como um instrumento a serviço dos judeus. A identificação entre bolchevismo e judaísmo adiciona um traço particular a este teatro de operações.

A um grupo de 250 oficiais do exército, Hitler proclama que a guerra a ser travada na União Soviética era uma “luta entre duas visões de mundo opostas”. Para ele o “bolchevismo é sinônimo de criminalidade. Comunismo [representa] um imenso perigo para o futuro. (…) [No leste] trata-se de uma luta de aniquilação (Vernichtungskampf). (…) Nós não vamos para a guerra para preservar o inimigo.”

O registro do discurso de Hitler, feito por Franz Halder, o chefe do Estado-Maior do Exército, dá a dimensão de que a guerra no leste foi pensada como uma guerra santa, na qual a contradição entre as partes não pode ser superada por ser fundamental e absoluta e não conjuntural ou circunstancial.

Em 10 de outubro de 1941, o marechal de campo von Reichenau edita uma ordem que diz respeito exclusivamente ao comportamento da tropa no leste: “o objetivo mais importante da campanha contra o sistema judaico-bolchevique é a completa destruição de seu poder e a eliminação da influência asiática no espaço cultural europeu”.  Sendo assim, o soldado alemão no leste “não é somente um combatente pelas regras da guerra”, mas também “um vingador”. (http://www.ns-archiv.de/krieg/1941 /nationalsozialistische-besatzungspolitik.php)

É neste quadro que se entende que, ao lado da ação de extermínio dos Einsatzgruppen (parte de uma política de extermínio específica voltada para os judeus), a suspensão das normas profissionais de conduta militar, a ordem para o assassinato dos membros do Partido Comunista e a forma como os prisioneiros de guerra soviéticos foram tratados são derivações diretas desta forma de compreender a guerra no leste e acabam por produzir um efeito devastador: entre 25 milhões, nas estimativas mais modestas, e 40 milhões de mortos.

Este modo de fazer a guerra no leste deriva diretamente da forma pela qual o Estado Nazista concebia a guerra, o território e o seu papel no tratamento de populações consideradas indignas. Como fundamento disto, havia um projeto político que foi perseguido por meio de um leque grande de ações, ainda que elas fossem econômica e militarmente desvantajosas.

Neste sentido, é inescapável, para que se entendam as origens desta guerra específica, pensar que a forma particular como os nazistas entenderam o mundo pautou uma forma específica de agir sobre ele.

Especial para ASA

* Tema da palestra proferida pelo autor na ASA, no recente Seminário 70º Aniversário do Fim da Segunda Guerra Mundial.

Luís Edmundo de Souza Moraes

Professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro

1 Comentário

  • Responder janeiro 2, 2016

    Mauro Band

    O artigo deixa um gosto de quero mais quando o autor se refere à visão do bolchevismo vinculado ao judaísmo. Isto, no entanto, daria margem a outro artigo. Parabéns, Edmundo, pelo ótimo texto.

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