Marc Bloch: historiador, francês, judeu

 

Marc Bloch

Marc Bloch

Um dos historiadores franceses mais conhecidos internacionalmente foi o medievalista Marc Bloch. Nascido em 1886 em uma família de judeus da Alsácia, ele foi professor na Universidade de Estrasburgo de 1919 a 1936, quando passou a ocupar a cadeira de História Econômica na Sorbonne, em Paris. Publicou vários livros e artigos, muitos traduzidos para outras línguas, inclusive português.

Não foi só por suas pesquisas que Bloch ganhou notoriedade. Em 1929 criou, com Lucien Febvre, Anais de História Econômica e Social, revista que transformou os modos de pesquisar e escrever História, até então uma narrativa de feitos individuais, sobretudo políticos, militares e diplomáticos, datados e localizados de modo preciso, extraídos de fontes escritas, preferencialmente oficiais. A revista promovia um diálogo entre a História e as demais ciências humanas, abrindo a sua agenda para novos temas, fontes e metodologias. Deslocava o indivíduo do proscênio, voltando a atenção para os grupos sociais e os contextos e estruturas que definiam suas ações. Privilegiava a análise à narrativa.

Outro elemento contribuiu para projetar o nome de Bloch, conferindo-lhe uma aura de admiração: sua morte trágica. Membro da Resistência francesa, foi capturado pelos alemães e fuzilado em junho de 1944. Com isso tornou-se praticamente obrigatória, sempre que Bloch e seus textos são mencionados ou reeditados, a referência ao seu caráter ao mesmo tempo acadêmico e engajado, à sua morte heroica.

Opção pela Resistência

O culto a Bloch e sua memória, após a 2ª Guerra, foi em parte resultado do trabalho de alguns de seus discípulos e amigos, Febvre em particular, e de um de seus filhos, Étienne. Garantiu sucessivas reedições de suas obras e a publicação, na forma de livro, de escritos dispersos e mesmo de anotações e esquemas de cursos. Dois de seus livros editados postumamente foram escritos durante a 2ª Guerra: A estranha derrota, publicado em 1946, e Apologia da História, de 1949. Seus objetivos eram distintos. O primeiro trazia o testemunho do autor sobre a derrota da França e suas causas, e o segundo, uma reflexão teórica e metodológica sobre a História e o ofício do historiador. Apesar das diferenças, ambos expressavam uma preocupação com a dimensão ética da disciplina histórica e do trabalho do historiador, produto do contexto em que foram escritos, das dificuldades então vividas pelo autor e seu país.

Apologia da História se inicia com uma criança indagando ao pai para que servia a História. Segundo Bloch, o que se colocava em jogo com a pergunta era a legitimidade do estudo da História. Ela impunha aos historiadores a necessidade de uma prestação de contas, levando-os a efetuar um balanço dos usos feitos das suas vidas e do seu conhecimento, para além dos limites da academia. Esse questionamento embasava a argumentação que o autor fazia no livro sobre os vínculos entre o passado e o presente, os modos como se iluminam mutuamente, e a importância do envolvimento do historiador com o seu mundo e com a vida em geral.

Essa linha de pensamento, presente também em A estranha derrota, ajuda a compreender a opção de Bloch pela Resistência. Ao final deste livro, faz-se uma crítica aos estudiosos das ciências humanas por se terem abstido de intervir na realidade e de procurar modificá-la, assumindo uma postura ascética diante do mundo, deixando-se contaminar por um fatalismo inerente às suas práticas disciplinares. Para o autor, teriam sido todos bons trabalhadores, mas nem sempre bons cidadãos. Tratava-se, portanto, de procurar sê-lo naquele momento, ainda que o quadro fosse bastante desfavorável e que a sorte dos franceses já não dependesse apenas deles.

Mas a opção política de Bloch também guardava relação com algo ressaltado no início do livro: sua origem judaica. Não há como deixá-la de lado, mesmo que o historiador se declarasse francês acima de tudo e ligado ao judaísmo somente por nascimento. Dizendo-se distante de formalismos confessionais, de práticas religiosas e de solidariedades pretensamente raciais, Bloch, embora não as ocultasse, afirmava que reivindicava suas origens quando diante do antissemitismo. E era exatamente disso que se tratava.

Autocrítica

A estranha derrota terminou de ser redigido em 1940, quando Bloch, embora tivesse seus espaços de atuação crescentemente reduzidos pelo fato de ser judeu, ainda conseguia manter a atividade docente, garantindo uma fonte de renda e de sustento da família. Sua situação, porém, foi se deteriorando dramaticamente. Mas antes disso, em diferentes ocasiões, ele já havia se deparado com o antissemitismo. Na Alsácia, onde ensinava, região fronteiriça à Alemanha, expressões de antissemitismo se intensificaram no início dos anos 1930, com a ascensão do nazismo. Foi também ao antissemitismo que Bloch atribuiu o fracasso de sua candidatura a uma vaga no prestigioso Collège de France, em 1935.

Em 1940, não lhe sendo possível prosseguir ensinando na Sorbonne, deslocou-se para a Faculdade de Letras da Universidade de Estrasburgo, então transferida para a cidade de Clermont-Ferrand. Em dezembro daquele ano, porém, foi excluído da função pública, situação revertida no início do ano seguinte, graças à ajuda de amigos e admiradores influentes. Junto com cerca de vinte outros estudiosos judeus, obteve uma autorização do governo pró-alemão estabelecido em Vichy para prosseguir na atividade docente, com a justificativa de que havia prestado excepcionais serviços científicos à nação. Em 1941, Bloch se transferiu para a Universidade Montpellier, onde se encontravam outros intelectuais de origem judaica.

Paralelamente a isso, tentativas vinham sendo feitas nos Estados Unidos, pelo Comitê de Resgate de Emergência e pela Fundação Rockefeller, para que Bloch fosse para aquele país. O mesmo foi feito com outros pensadores judeus, como o antropólogo Claude Lévi-Strauss e a filósofa Hannah Arendt. Entretanto, dificuldades de obtenção de vistos de saída para a família numerosa inviabilizaram o projeto. Isso ocorreu em 1941, quando as opções e possibilidades de Bloch se reduziam de modo acelerado. Foi também nesse ano que, para garantir a continuidade da revista, Febvre lhe pediu que deixasse a direção de Anais. No ano seguinte, Bloch terminou por abandonar Montpellier para se refugiar com a família.

Foi em meio a tudo isso que o autor redigiu Apologia da História, livro que não chegou a concluir. Interrompeu-o em 1943, ao entrar na clandestinidade. Apesar das dificuldades do momento, o texto tem um tom de esperança e de neutralização do fatalismo. Mas também é possível perceber, quando se o lê juntamente com A estranha derrota, algo como uma autocrítica em relação a uma postura intelectual, que não era de todo exclusiva dele, que separava a ciência do engajamento social e político. E o que, para além dos seus escritos, a sua trajetória igualmente demonstrava era a impossibilidade, naquele contexto, de uma outra separação, independente da sua vontade: a da sua carreira e do seu pertencimento nacional em relação à sua origem judaica.

Especial para ASA

Mario Grynszpan

Professor de Teoria e Metodologia da História do Departamento de História da Universidade Federal Fluminense, Doutor em Antropologia Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro

1 Comentário

  • Responder novembro 8, 2015

    Mauro Band

    Excelente texto.

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